Isto dá que pensar .
Passou tão pouco tempo que desde que se viveu no País,
a maior tragédia nacional de fogos florestais, que teve
lugar este Verão;
Desde então, choveu em Portugal, durante meia dúzia de
dias e nunca com grande intensidade, devido a uma das
maiores secas, de que há memória;
Algumas das barragens estavam quase secas, entre as
quais Fagilde, perto de Viseu, onde foi necessário trans-
portar a água em camiões cisterna, durante quase um
mês, para abastecer a região, já então em regime de seca
extrema .
Hoje vi na TV, que há barragens já a 60% da sua capa-
cidade, e entre elas, a que atrás foi citada .
Há alguma coisa que não me parece estar a bater certo .
O facto está errado,
foi mal calculado,
a tal barragem é tão insignificante, que só dá para os passa-
rinhos,
ou só choveu naquelas bandas .
Agora mais a sério, quem tem responsabilidades sobres as
questões vitais do País, o ar, o mar, a água, o território, a
chuva, o fogo, as arribas, entre outros, de modo a poder in-
formar os portugueses sobre a validade e a fiabilidade dos
parâmetros fundamentais acerca das condições de vida de
todos nós ?.
.
segunda-feira, 8 de janeiro de 2018
Um Homem Prodigioso .
As sete vidas .
Como é que eu vim parar ao Tortosendo ?
A minha família cresceu e viveu numa terra de montanha,
com tudo o que isso implica, de bom e de mau .
Seia, uma Vila Presépio,
Com bons ares e melhores águas .
Longe de tudo e de todos, com as insuficiências materiais e
humanas, num pós guerra com o mundo devastado por uma
guerra e um extermínio horríveis .
o António Plácido,
o senhor meu Pai,
armado com um diploma da 4ª. classe, fez-se ao Mundo .
Foi subindo os degraus da vida, como quem escala uma mon-
tanha sem fim .
Tirou um Curso de Contabilidade, por correspondência, foi um
músico virtuoso, caçador e pescador, percorrendo a Serra da Es-
trela, de fio a pavio, jogou à bola nos clubes locais, Os Viriatos e,
pois no Seia Futebol Clube, um Back de respeito, ao lado de ou-
tros familiares e amigos, integrava os conjuntos musicais da Ter-
ra, amigo do seu amigo, companheiro em festas e romarias, foi
um cometa que atravessou o firmamento Senense .
Lembro-me dele, era eu um moço travesso, lingrinhas, corren-
do lesto para a escola e para a brincadeira .
O primeiro emprego de que me lembro, foi no Grémio da La-
voura, de Seia, onde era Contabilista .
E aí esteve, durante os primeiros anos da minha meninice .
Mas aquele mundo,
era pequeno demais para ele .
.
Seia, como outras terras em volta, viviam da parca agricultura, do
pinhal e do pasto para os animais .
Dada a sua situação geográfica e a natureza das águas da Serra, com
pouco calcáreo, desenvolveu desde muito cedo, desde a época do Mar-
quês de Pombal, que mandou construir a Real Fábrica dos Panos, na
Covilhã, uma indústria de lanifícios, que foi ocupando toda Serra .
Outro grande empreendimento, que veio criar riqueza em Seia, foi
a Empresa Hidroeléctrica da Serra da Estrela, luminosa ideia de um
homem de Gouveia, Marques da Silva, que criou do nada, uma obra
gigantesca em toda a região .
Obteve a concessão de todas as águas da Serra, a troco de electricida-
de barata, ao preço da uva mijona, durante meio século .
Graças a esta benesse da natureza e dos serranos, Seia foi, desde há
muito, uma terra de mão de obra especializada e de progresso .
Os Lanifícios, eram uma grande actividade económica, em especial da
cidade da Covilhã, mas com grandes satélites em Tortosendo, Alvoco
da Serra, Loriga, Seia, Manteigas e Gouveia, entre outras .
Mas foi com o dealbar da Guerra Colonial, com o contrato de exclusi-
vidade que o Governo assinou com o industrial Joaquim Fernandes Si-
mões, mais tarde Comendador, para fomento da indústria de fardamen-
to, que fez explodir o mercado de trabalho, na minha terra .
Já então, o senhor Meu Pai, era um Contabilista de renome e disputa-
do em vários círculos .
Entre as várias propostas de emprego, o António Plácido acabou por
optar pela Fábrica dos Irmãos Pontífices, localizada do outro lado da Ser-
ra da Estrela .
Só muito mais tarde,
(as voltas que o Mundo dá ...),
talvez tenha entendido o alcance da escolha que o Meu Pai fez :
Tinha aberto o caminho dos filhos, para outras
aventuras,
Liceus, Escolas Comerciais e Industriais
e, porque não, para as Universidades .
.
Antes de ser colocado no Tortosendo, o Meu Pai esteve a algum tempo
a trabalhar no Porto .
Passou depois alguns anos, nos escritórios da firma Superfix, em Lisboa,
na Rua dos Sapateiros, na Baixa Lisboeta .
De caminho, morámos na Pensão do Gaia, na Rua Bernardim Ribeiro,
depois na Rua B, à Av. Afonso III e ainda na R de Arroios .
Tinha acabado o Rally Paper,
sempre em busca de um lugar ao sol, e melhoria das condições de vida da
tribo .
Na Covilhã/Tortosendo, tinhamos finalmente encontrado porto de abrigo,
com direito a a vivermos um pouco de paz e sossego .
Com a construção da casa da família, surgiu alguma estabilidade, mas todos
tínhamos crescido, e procurávamos agora voar um pouco mais alto .
Partíamos para Castelo Branco, para a Guarda, para Coimbra ou para
Lisboa, onde houvesse a melhor solução de estudo, para cada caso .
.
Havia agora algum espaço para os Meus Pais se ocuparem um pouco mais
de si próprios, tentando recuperar o tempo perdido .
.
Como é que eu vim parar ao Tortosendo ?
A minha família cresceu e viveu numa terra de montanha,
com tudo o que isso implica, de bom e de mau .
Seia, uma Vila Presépio,
Com bons ares e melhores águas .
Longe de tudo e de todos, com as insuficiências materiais e
humanas, num pós guerra com o mundo devastado por uma
guerra e um extermínio horríveis .
o António Plácido,
o senhor meu Pai,
armado com um diploma da 4ª. classe, fez-se ao Mundo .
Foi subindo os degraus da vida, como quem escala uma mon-
tanha sem fim .
Tirou um Curso de Contabilidade, por correspondência, foi um
músico virtuoso, caçador e pescador, percorrendo a Serra da Es-
trela, de fio a pavio, jogou à bola nos clubes locais, Os Viriatos e,
pois no Seia Futebol Clube, um Back de respeito, ao lado de ou-
tros familiares e amigos, integrava os conjuntos musicais da Ter-
ra, amigo do seu amigo, companheiro em festas e romarias, foi
um cometa que atravessou o firmamento Senense .
Lembro-me dele, era eu um moço travesso, lingrinhas, corren-
do lesto para a escola e para a brincadeira .
O primeiro emprego de que me lembro, foi no Grémio da La-
voura, de Seia, onde era Contabilista .
E aí esteve, durante os primeiros anos da minha meninice .
Mas aquele mundo,
era pequeno demais para ele .
.
Seia, como outras terras em volta, viviam da parca agricultura, do
pinhal e do pasto para os animais .
Dada a sua situação geográfica e a natureza das águas da Serra, com
pouco calcáreo, desenvolveu desde muito cedo, desde a época do Mar-
quês de Pombal, que mandou construir a Real Fábrica dos Panos, na
Covilhã, uma indústria de lanifícios, que foi ocupando toda Serra .
Outro grande empreendimento, que veio criar riqueza em Seia, foi
a Empresa Hidroeléctrica da Serra da Estrela, luminosa ideia de um
homem de Gouveia, Marques da Silva, que criou do nada, uma obra
gigantesca em toda a região .
Obteve a concessão de todas as águas da Serra, a troco de electricida-
de barata, ao preço da uva mijona, durante meio século .
Graças a esta benesse da natureza e dos serranos, Seia foi, desde há
muito, uma terra de mão de obra especializada e de progresso .
Os Lanifícios, eram uma grande actividade económica, em especial da
cidade da Covilhã, mas com grandes satélites em Tortosendo, Alvoco
da Serra, Loriga, Seia, Manteigas e Gouveia, entre outras .
Mas foi com o dealbar da Guerra Colonial, com o contrato de exclusi-
vidade que o Governo assinou com o industrial Joaquim Fernandes Si-
mões, mais tarde Comendador, para fomento da indústria de fardamen-
to, que fez explodir o mercado de trabalho, na minha terra .
Já então, o senhor Meu Pai, era um Contabilista de renome e disputa-
do em vários círculos .
Entre as várias propostas de emprego, o António Plácido acabou por
optar pela Fábrica dos Irmãos Pontífices, localizada do outro lado da Ser-
ra da Estrela .
Só muito mais tarde,
(as voltas que o Mundo dá ...),
talvez tenha entendido o alcance da escolha que o Meu Pai fez :
Tinha aberto o caminho dos filhos, para outras
aventuras,
Liceus, Escolas Comerciais e Industriais
e, porque não, para as Universidades .
.
Antes de ser colocado no Tortosendo, o Meu Pai esteve a algum tempo
a trabalhar no Porto .
Passou depois alguns anos, nos escritórios da firma Superfix, em Lisboa,
na Rua dos Sapateiros, na Baixa Lisboeta .
De caminho, morámos na Pensão do Gaia, na Rua Bernardim Ribeiro,
depois na Rua B, à Av. Afonso III e ainda na R de Arroios .
Tinha acabado o Rally Paper,
sempre em busca de um lugar ao sol, e melhoria das condições de vida da
tribo .
Na Covilhã/Tortosendo, tinhamos finalmente encontrado porto de abrigo,
com direito a a vivermos um pouco de paz e sossego .
Com a construção da casa da família, surgiu alguma estabilidade, mas todos
tínhamos crescido, e procurávamos agora voar um pouco mais alto .
Partíamos para Castelo Branco, para a Guarda, para Coimbra ou para
Lisboa, onde houvesse a melhor solução de estudo, para cada caso .
.
Havia agora algum espaço para os Meus Pais se ocuparem um pouco mais
de si próprios, tentando recuperar o tempo perdido .
.
sábado, 6 de janeiro de 2018
As aguarelas - 3 .
Entre o Desenho e o Debuxo .
Ainda tentei utilizar os guaches, mas não me ajeitava muito,
as côres eram muito baças, não apresentavam grande lumino-
sidade .
Alguém me ofereceu uma caixa de óleos, coisa cara e rara, mas
não conseguia esperar o tempo suficiente para ver ir vendo o de-
senho secar . Além disso, os óleos cheiravam mal .
O lápis era difícil de acertar com o traço, tinha que se estar sem-
pre a aguçar, para manter a sua regularidade .
Restavam-me as aguarelas, mas aí é a porca torcia o rabo, e o dia-
cho era precisa muita paciência, que era coisa que eu não tinha
em abundância .
Vem-me à memória o argumento do Poeta Bocage, que andava
com as calças esburacadas, porque estava sempre à espera do úl-
timo modelo do alfaiate .
Depois, como trabalhar numa casa com muita gente e sem ter o
mínimo cantinho, sem ter que andar com o trabalho às costas, sem-
pre a borrar o desenho .
Tudo, desculpas de mau pagador .
Só no Liceu, e com o apoio dos professores de Desenho e Trabalhos
manuais, é que ganhei algumas ferramentas e organização, para lan-
çar mãos à obra .
Frequentei 3 liceus nos tês primeiros anos do Liceu, Camões, Covilhã e
Castelo Branco .
Depois instalei-me na Covilhã .
Juntamente com a frequência do Liceu, estudava na escola nocturna,
para tirar o Curso de Debuxador, curso especialmente dado para os
alunos que queriam seguir as disciplinas específicas da indústria dos
lanifícios .
Comecei a tornar-me um Debuxador .
Debuxava e desenhava em simultâneo .
A minha família insistia que eu tinha alguma habilidade para o desenho .
Achava que sim, mas quem poderia ter agora tempo para a brincadeira,
com o tempo todo tomado delas aulas .Tive que reciclar-me rápido e em força .
Estudava em dois cursos, mas acho que nenhum deles me dava grandes
pre-ocupações .
No Colégio Moderno, um antro de bandidos, bastava estar com atenção
nas aulas e os trabalhos e casa não abundavam.
Os exames -só o 5º. ano é que foram mais complicados, pois tivemos que
ir fazê-los fora de casa, no liceu em desenvolvimento na Cidade , e que
nos era hostil, por questões políticas, a que eram-mos completamente
alheios .
Na escola da noite, o trabalho era dimensionado para estudantes trabalha-
dores, estudo era tecnicamente muito práctico, e dirigido a gente já envolvi-
da profissão .
Não foi difícil adaptar-me às novas tarefas exigidas, até porque então come-
cei a ter prazer nalgumas disciplinas do curso, muito em especiar, as que se
relacionavam com as artes plásticas .
Tínhamos uma grande carga de horas dedicadas ao desenho com modelos
(de gesso, nada de sacanagem) e de desenho decorativo .
Apesar de existir alguma rigidez de programação, havia no entanto , muito
espaço para a actividade criativa .
Havia ainda, a matéria mais importante, que respeitava ao debuxo prória-
mente dito, o estudo e o aperfeiçoamento das técnicas de produzir tecidos,
a partir da selecção dos fios, das suas côres e das técnicas de consumar o
cruzamento dos mesmos, através dos teares, conduzindo à feitura bons e
belos tecidos, que os burgueses, depois apresentavam aos alfaiates, os leva-
vam exibir na Missa e nas relações sociais .
O Pivot de toda esta orquestra era o
Debuxador,
que dirigia com mestria, o desenrolar desta sinfonia industrial, que fazia
giralra vida e o progresso da Região da Serra da Estrela .
.
.
Ainda tentei utilizar os guaches, mas não me ajeitava muito,
as côres eram muito baças, não apresentavam grande lumino-
sidade .
Alguém me ofereceu uma caixa de óleos, coisa cara e rara, mas
não conseguia esperar o tempo suficiente para ver ir vendo o de-
senho secar . Além disso, os óleos cheiravam mal .
O lápis era difícil de acertar com o traço, tinha que se estar sem-
pre a aguçar, para manter a sua regularidade .
Restavam-me as aguarelas, mas aí é a porca torcia o rabo, e o dia-
cho era precisa muita paciência, que era coisa que eu não tinha
em abundância .
Vem-me à memória o argumento do Poeta Bocage, que andava
com as calças esburacadas, porque estava sempre à espera do úl-
timo modelo do alfaiate .
Depois, como trabalhar numa casa com muita gente e sem ter o
mínimo cantinho, sem ter que andar com o trabalho às costas, sem-
pre a borrar o desenho .
Tudo, desculpas de mau pagador .
Só no Liceu, e com o apoio dos professores de Desenho e Trabalhos
manuais, é que ganhei algumas ferramentas e organização, para lan-
çar mãos à obra .
Frequentei 3 liceus nos tês primeiros anos do Liceu, Camões, Covilhã e
Castelo Branco .
Depois instalei-me na Covilhã .
Juntamente com a frequência do Liceu, estudava na escola nocturna,
para tirar o Curso de Debuxador, curso especialmente dado para os
alunos que queriam seguir as disciplinas específicas da indústria dos
lanifícios .
Comecei a tornar-me um Debuxador .
Debuxava e desenhava em simultâneo .
A minha família insistia que eu tinha alguma habilidade para o desenho .
Achava que sim, mas quem poderia ter agora tempo para a brincadeira,
com o tempo todo tomado delas aulas .Tive que reciclar-me rápido e em força .
Estudava em dois cursos, mas acho que nenhum deles me dava grandes
pre-ocupações .
No Colégio Moderno, um antro de bandidos, bastava estar com atenção
nas aulas e os trabalhos e casa não abundavam.
Os exames -só o 5º. ano é que foram mais complicados, pois tivemos que
ir fazê-los fora de casa, no liceu em desenvolvimento na Cidade , e que
nos era hostil, por questões políticas, a que eram-mos completamente
alheios .
Na escola da noite, o trabalho era dimensionado para estudantes trabalha-
dores, estudo era tecnicamente muito práctico, e dirigido a gente já envolvi-
da profissão .
Não foi difícil adaptar-me às novas tarefas exigidas, até porque então come-
cei a ter prazer nalgumas disciplinas do curso, muito em especiar, as que se
relacionavam com as artes plásticas .
Tínhamos uma grande carga de horas dedicadas ao desenho com modelos
(de gesso, nada de sacanagem) e de desenho decorativo .
Apesar de existir alguma rigidez de programação, havia no entanto , muito
espaço para a actividade criativa .
Havia ainda, a matéria mais importante, que respeitava ao debuxo prória-
mente dito, o estudo e o aperfeiçoamento das técnicas de produzir tecidos,
a partir da selecção dos fios, das suas côres e das técnicas de consumar o
cruzamento dos mesmos, através dos teares, conduzindo à feitura bons e
belos tecidos, que os burgueses, depois apresentavam aos alfaiates, os leva-
vam exibir na Missa e nas relações sociais .
O Pivot de toda esta orquestra era o
Debuxador,
que dirigia com mestria, o desenrolar desta sinfonia industrial, que fazia
giralra vida e o progresso da Região da Serra da Estrela .
.
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sexta-feira, 5 de janeiro de 2018
A Volúptia da Espera .
Como vivíamos felizes,
quando não tínhamos telefone,
nem telemóvel,
e os aerogramas viajavam de paquete .
E Adão não tinha sogra .
Isso sim, é que eram bons tempos ...
.
.
quando não tínhamos telefone,
nem telemóvel,
e os aerogramas viajavam de paquete .
E Adão não tinha sogra .
Isso sim, é que eram bons tempos ...
.
.
As aguarelas (2) .
O primeiro desenho de que tenho memória, é uma pequena paisagem
campestre, pintada numa pequena caixa de chocolates que me deram
pelo Natal .
Curioso que aparece nele um pequeno ribeiro, pois eu nunca tinha vis-
to o mar . Só mais tarde, quando visitei Lisboa pela primeira vez, avis-
tei o Rio Tejo, que para mim, era já o mar imenso, de que ouvia falar
nos livros de história .
Tinham-me dado uma pequena paleta de plástico, com algumas cores,
pareciam pedrinhas de cores, que eu esfregava com um pincelito muito
rasca .
Mas foi um momento muito importante para mim, quando comecei a es-
fregar com ele e produzir as primeiras cores .
Na minha terra, provavelmente nem sequer tinha oportunidade de com-
prar uma caixa metálica, com muitas cores, e de melhor qualidade .
Mas foi assim que comecei .
Foi um outro pintor, importante na minha vida,
Tavares Correia,
um pintor de Seia, que me deu a ver as belas paisagens de neve, que
mostrando inúmeras vistas da Serra da Estrela, e espalhadas, um pou-
co por toda a parte, nos cafés e nos edifícios públicos da minha terra .
Existe hoje um museu com o seu nome, que preserva a sua obra e a sua
memória .
.
campestre, pintada numa pequena caixa de chocolates que me deram
pelo Natal .
Curioso que aparece nele um pequeno ribeiro, pois eu nunca tinha vis-
to o mar . Só mais tarde, quando visitei Lisboa pela primeira vez, avis-
tei o Rio Tejo, que para mim, era já o mar imenso, de que ouvia falar
nos livros de história .
Tinham-me dado uma pequena paleta de plástico, com algumas cores,
pareciam pedrinhas de cores, que eu esfregava com um pincelito muito
rasca .
Mas foi um momento muito importante para mim, quando comecei a es-
fregar com ele e produzir as primeiras cores .
Na minha terra, provavelmente nem sequer tinha oportunidade de com-
prar uma caixa metálica, com muitas cores, e de melhor qualidade .
Mas foi assim que comecei .
Foi um outro pintor, importante na minha vida,
Tavares Correia,
um pintor de Seia, que me deu a ver as belas paisagens de neve, que
mostrando inúmeras vistas da Serra da Estrela, e espalhadas, um pou-
co por toda a parte, nos cafés e nos edifícios públicos da minha terra .
Existe hoje um museu com o seu nome, que preserva a sua obra e a sua
memória .
.
O REGRESSO ÀS AGUARELAS .
Turner, o mago das aguarelas .
De quando em quando, vem-me uma vontade de retomar
a pintura de tintas de água, uma arte menor, até ao mundo
de Turner, o homem a impôs com uma arte nobre e sublime .
Até então, era usual a feitura de esboços, ensaios, estudos,
que mais tarde dariam origem das grandes obras de arte da
pintura .
Muitas vezes eram depois arrumados ao acaso, manuseados ,
sem qualquer cuidado, acabando normalmente no caixote do
lixo da história .
Turner, um pintor viajante, carregava uma bolsa cheia de pa-
pel, e como pintor convulsivo que era (pintava vários desen-
hos ao mesmo tempo, para não ter que esperar que as agua-
das secassem), foi coleccionando centenas ou milhares de cro-
quis, e deixou uma enorme quantidade de trabalhos, alguns
peque-
apenas pormenores, outros já obras completas, que ficariam
muito tempo esquecidos em gavetas e armários, e só mais tar-
de exibidos em todo o mundo .
Parece impossível que tanta beleza tenha saído de mãos tão ru-
des e grosseiras, e da cabeça de um quase louco, difícil de atu-
rar, dado o temperamento irascível de tão estranho persona-
gem .
O homem morreu, mas a sua obra permanecerá para todo o
sempre .
Foi com o pintor
Roque Gameiro,
um pintor de paisagens
feitas nos confins da Serra da Estrela, em Vide, Concelho
de Seia, que tomei contacto, pela primeira vez, com outro gi-
gante da pintura . É um homerm pouco conhecida do público
em geral, que deixou obra monumental, visível em paisagens
de paredes de igrejas e de retratos de figuras célebres .
O Largo com o seu nome, no Cais do Sodré, era uma autêntic-
a lixeira, lugar de recolha de mendigos e maltrapilhos .
Em boa hora, a CML acorreu à reabilitação de tal lugar, dando-
lhe uma honra que o pintos há muito merecia .
Uma palavra para outro enorme pintor,
Paulo Ossião
Pintor aguarelas de grande dimensões, com quadros espalhados
por casas finas e grandes espaços comerciais, em portugal e no es-
trangeiro .
Agora, vou ver se começo a pintar com cores de água .
.
De quando em quando, vem-me uma vontade de retomar
a pintura de tintas de água, uma arte menor, até ao mundo
de Turner, o homem a impôs com uma arte nobre e sublime .
Até então, era usual a feitura de esboços, ensaios, estudos,
que mais tarde dariam origem das grandes obras de arte da
pintura .
Muitas vezes eram depois arrumados ao acaso, manuseados ,
sem qualquer cuidado, acabando normalmente no caixote do
lixo da história .
Turner, um pintor viajante, carregava uma bolsa cheia de pa-
pel, e como pintor convulsivo que era (pintava vários desen-
hos ao mesmo tempo, para não ter que esperar que as agua-
das secassem), foi coleccionando centenas ou milhares de cro-
quis, e deixou uma enorme quantidade de trabalhos, alguns
peque-
apenas pormenores, outros já obras completas, que ficariam
muito tempo esquecidos em gavetas e armários, e só mais tar-
de exibidos em todo o mundo .
Parece impossível que tanta beleza tenha saído de mãos tão ru-
des e grosseiras, e da cabeça de um quase louco, difícil de atu-
rar, dado o temperamento irascível de tão estranho persona-
gem .
O homem morreu, mas a sua obra permanecerá para todo o
sempre .
Foi com o pintor
Roque Gameiro,
um pintor de paisagens
feitas nos confins da Serra da Estrela, em Vide, Concelho
de Seia, que tomei contacto, pela primeira vez, com outro gi-
gante da pintura . É um homerm pouco conhecida do público
em geral, que deixou obra monumental, visível em paisagens
de paredes de igrejas e de retratos de figuras célebres .
O Largo com o seu nome, no Cais do Sodré, era uma autêntic-
a lixeira, lugar de recolha de mendigos e maltrapilhos .
Em boa hora, a CML acorreu à reabilitação de tal lugar, dando-
lhe uma honra que o pintos há muito merecia .
Uma palavra para outro enorme pintor,
Paulo Ossião
Pintor aguarelas de grande dimensões, com quadros espalhados
por casas finas e grandes espaços comerciais, em portugal e no es-
trangeiro .
Agora, vou ver se começo a pintar com cores de água .
.
quinta-feira, 4 de janeiro de 2018
Sobre a Corru(p)ção .
A história da pulhice humana .
Dizia um dos capitães de Abril, que foi o Presidente da Comissão
de Extinção da PIDE/DGS, o Comandante Costa Brás , que só ha-
via lugar a corrupção, se algum dos intervenientes, corruptor ou
corrompido, fosse funcionário ou agente do Estado .
E ele era uma autoridade na matéria .
Como facilmente se depreende, a maioria dos portugueses nunca
viriam a practicar a corrupção ( com esta conversa, até já a pala-
vra foi corrompida, perdendo o p do meio ).
Nesta acepção, Caím matou Abel, mas não foi um acto de corrup-
ção, foi só um assassinato.
Para a grande maioria da nossa população, pode-se roubar, fanar,
surripiar, aliviar, extorquir, caçar, limpar, assaltar, arrombar, tudo
e mais alguma coisa, mas practicar a corrupção é que não ...
É privilégio de Governantes, Magistrados, Agentes Policiais e figu-
ras gradas do regime vigente, e da rapaziada de horário e ordena-
inscrito nos livros do Estado .
Compreende-se agora a razão porque tanta gente importante, que
tanto se tem esforçado para continuar à solta, e raramente ter pro-
blemas com a Justiça e outras Corporações estruturantes da nossa
Nação .
Confesso que a ideia que eu fazia daqueles coitados de profissão li-
beral, que enganam descaradamente o pagode, e nunca têm que
prestar contas a ninguém, mesmo que a batota nos negócios seja
exorbitante, estava profundamente errada .
Mas tenho que respeitosamente aceitar o meu erro .
Um dos meus grandes meus mentores em questões morais e sociais,
o Prof. Doutor José Vilhena, com interessante e vultosa obra publi-
cada (e até fortemente censurada no Antigo Regime ), foi um dos
mais importantes autores sobre estas questões .
De referir a Enciclopédia, em numerosos volumes,
"A história da pulhice humana",
que foi leitura obrigatória e companhia indispensável do travesseiro,
para quem se interessasse pelo fenómeno da ladroagem .
O autor acabou na cadeia, mas não por corrupção .
.
Dizia um dos capitães de Abril, que foi o Presidente da Comissão
de Extinção da PIDE/DGS, o Comandante Costa Brás , que só ha-
via lugar a corrupção, se algum dos intervenientes, corruptor ou
corrompido, fosse funcionário ou agente do Estado .
E ele era uma autoridade na matéria .
Como facilmente se depreende, a maioria dos portugueses nunca
viriam a practicar a corrupção ( com esta conversa, até já a pala-
vra foi corrompida, perdendo o p do meio ).
Nesta acepção, Caím matou Abel, mas não foi um acto de corrup-
ção, foi só um assassinato.
Para a grande maioria da nossa população, pode-se roubar, fanar,
surripiar, aliviar, extorquir, caçar, limpar, assaltar, arrombar, tudo
e mais alguma coisa, mas practicar a corrupção é que não ...
É privilégio de Governantes, Magistrados, Agentes Policiais e figu-
ras gradas do regime vigente, e da rapaziada de horário e ordena-
inscrito nos livros do Estado .
Compreende-se agora a razão porque tanta gente importante, que
tanto se tem esforçado para continuar à solta, e raramente ter pro-
blemas com a Justiça e outras Corporações estruturantes da nossa
Nação .
Confesso que a ideia que eu fazia daqueles coitados de profissão li-
beral, que enganam descaradamente o pagode, e nunca têm que
prestar contas a ninguém, mesmo que a batota nos negócios seja
exorbitante, estava profundamente errada .
Mas tenho que respeitosamente aceitar o meu erro .
Um dos meus grandes meus mentores em questões morais e sociais,
o Prof. Doutor José Vilhena, com interessante e vultosa obra publi-
cada (e até fortemente censurada no Antigo Regime ), foi um dos
mais importantes autores sobre estas questões .
De referir a Enciclopédia, em numerosos volumes,
"A história da pulhice humana",
que foi leitura obrigatória e companhia indispensável do travesseiro,
para quem se interessasse pelo fenómeno da ladroagem .
O autor acabou na cadeia, mas não por corrupção .
.
Cantiga de Amigo .
Sou um romântico serôdio, que se vai tornando mais tolo
com a idade .
Transformando os sonhos em desejos, os desejos em desi-
lusões, as desilusões em pesadelos, os pesadelos em deses
pero .
Caio em todas as trapaças do desencanto e da fantasia pa-
tética .
Navego nas águas profundas do desencanto .
Sem smeaperceber da rude crueza da realidade, persigo as
labaredas da paixão, sem nunca ma aproximar, nem que se-
ja ao de leve .
Gato escaldado, da água fria tem medo .
Quantas vezes me esfalfo em busca da alma gémea, que me
poderia servir de refrigério para os meus tormentos .
Tento, tento, uma vez e outra, sem qualquer resultado .
O meu destino é a solidãom aguardando a visita do Cupido,
alguma seta disparade às cegas, ao acaso .
Não me quiexo de nada .
Já nada quero .
O meu coração empedrenido, duro como o granitojá em na-
da acredita .
Sou uma alma penada, vagueando no vazio .
.
com a idade .
Transformando os sonhos em desejos, os desejos em desi-
lusões, as desilusões em pesadelos, os pesadelos em deses
pero .
Caio em todas as trapaças do desencanto e da fantasia pa-
tética .
Navego nas águas profundas do desencanto .
Sem smeaperceber da rude crueza da realidade, persigo as
labaredas da paixão, sem nunca ma aproximar, nem que se-
ja ao de leve .
Gato escaldado, da água fria tem medo .
Quantas vezes me esfalfo em busca da alma gémea, que me
poderia servir de refrigério para os meus tormentos .
Tento, tento, uma vez e outra, sem qualquer resultado .
O meu destino é a solidãom aguardando a visita do Cupido,
alguma seta disparade às cegas, ao acaso .
Não me quiexo de nada .
Já nada quero .
O meu coração empedrenido, duro como o granitojá em na-
da acredita .
Sou uma alma penada, vagueando no vazio .
.
quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
A Grande Lição da Catalunha .
Editorial do Expresso .
(Dezembro 1917 )
"Quando o Governo espanhol marcou eleições para a
Catalunha, fê-lo para esmagar eleitoralmente os inde~
pendentistas .
Mariano Ragoy, qual De Gaule em Maio de 1968, acre-
ditava poder despertar a "maioria silenciosa"que não
se manifestava na rua, mas defendia os valores conser-
vadores . Assim legitimaria a linha dura :
invocação do Artigo 155º. da Constituição, suspendendo
a autonomia catalã, controlando os serviços públicos,
prendendo dirigentes, etc.
Após uma votação pacífica e participada, os catalães, fi-
zeram três coisas .
Humilharam Rajoy e o PP, consagraram como alterna-
tiva à linha dura, o soberanismo de rosto humano de Inès
Arrimadas (Cidadãos, Centro Direita) e deram a maioria
absoluta aos independentistas .
E puniram o Rei, pela sua colagem a Rajoy, como Puigde-
mont não deixou de sublinhar, foi um voto"pela República
e contra a Monarquia do Artº. 155ª.""
Só os cegos não querem ver ...
.
(Dezembro 1917 )
"Quando o Governo espanhol marcou eleições para a
Catalunha, fê-lo para esmagar eleitoralmente os inde~
pendentistas .
Mariano Ragoy, qual De Gaule em Maio de 1968, acre-
ditava poder despertar a "maioria silenciosa"que não
se manifestava na rua, mas defendia os valores conser-
vadores . Assim legitimaria a linha dura :
invocação do Artigo 155º. da Constituição, suspendendo
a autonomia catalã, controlando os serviços públicos,
prendendo dirigentes, etc.
Após uma votação pacífica e participada, os catalães, fi-
zeram três coisas .
Humilharam Rajoy e o PP, consagraram como alterna-
tiva à linha dura, o soberanismo de rosto humano de Inès
Arrimadas (Cidadãos, Centro Direita) e deram a maioria
absoluta aos independentistas .
E puniram o Rei, pela sua colagem a Rajoy, como Puigde-
mont não deixou de sublinhar, foi um voto"pela República
e contra a Monarquia do Artº. 155ª.""
Só os cegos não querem ver ...
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segunda-feira, 1 de janeiro de 2018
O Pedro e o 25 de Abril .
Tinha o Pedro quase 3 anos,
quando aconteceu finalmente, o 25 de Abril .
Para ele foi o verdadeiro dia da libertação, pois que nós
estávamos absorvidos a festejar aquela data, ainda des-
crentes e duvidosos do que estaria para vir, que até nos
esquecemos de lhe dar a papa .
Depois fomos à loja do Sr. Eduardo, já quase saqueada,
para conseguir-mos angariar, com dificuldade, alguma
coisa de comer .
Tinha começado uma nova era, o mundo velho ia morrer .
Eram grandes as esperanças, maiores as promessas .
Tudo parecia valer a pena, mesmo que a alma fosse um
pouco pequena .
O Mário Pedro foi criado numa atmosfera aberta e tole-
rante, em que o sonho estava sempre à espreita .
Costumávamos dizer por graça, que tinha sido vacinado ,
logo em pequenino, com as vacinas do Benfica e do PS,
inoculadas pelo Rodrigues, o namorado da Júlia, emprega-
da da nossa casa, e cuidadora do rapaz .
A vacina do Benfica pegou logo, a do PS levou algum tempo
a fazer o seu caminho .
Miúdo espertalhaço, convivia muito com os adultos e discu-
tia acaloradamente com os da sua idade .
Ouvia atentamente as opiniões dos pais, e depois fazia o seu
julgamento .
Quer eu, quer a mãe, navegávamos noutras águas ideológicas .
No 25 de Abril, desde sempre que saíamos os três de casa, bem
cedo, e percorríamos e participávamos em 3 manifestações,ca-
da côr, seu paladar .
De manhã íamos ao PCP, depois do almoço curtíamos a festa
do PS, à noite atacávamos a manif da esquerdalhada .
.
Só mais tarde, então já no Colégio Moderno, é que começou a de-
senvolver uma militância política mais séria .
Tinha como modelos reais, Mário Soares e Maria Barroso, e a malta
camarada que com eles iniciavam então a vida partidária .
Foi militantemente subindo todos os degraus da Jota, e ràpidamente
se tornou um líder natural na estrutura do Partido Socialista .
Atarefava--se em reuniões partidárias sem fim, organizava listas e elei-
çôes, preparava os programas e os textos, conduzia os trabalhos com
eficiêcia e a consideração de muitos dos seus camaradas, com os mais
jovens e com outros já de idade avançada .
Vivia cada Congresso, cada Distrital, cada reunião das secções, com o
mesmo empenho e entusiasmo, rigoroso, com o dom da palavra e a
capacidade de congregar vontades e gerir com facilidade as propostas
e projectos a que se propunha .
Foi desde o seu início, um dos mentores da
Tertúlia do Martinho da Arcada,
uma espécie de Governo Sombra do grupo liderado por António José
Seguro, juntamente com outros amigos, entre os quais saliento o Álvaro
Beleza, o David Santos, o Ricardo, o Franco, o Pedro Antão e a Elsa, a
Carmen, o Jorjão, o António, o Paulo, e outros que a minha memória já
não retém, mas que estão referidos no cabeçalho do Blog . Entretanto,
em homenagem ao Mário Pedro, o Grupo passou a designar-se
Tertúlia do Garcia
que continua a reunir-se, embora com menos regularidade, e costuma
agregar, como convidados, gente importante do PS, ou de outros qua-
drantes .
O Mário integrou a primeira delegação portuguesa ao Parlamento Euro-
peu Jovem, realizada em Versailles, em nome do Colégio Moderno de Lis-
boa .
Para mostrar a sua categoria, como activista político e também como
aluno, o Mário Pedro foi galardoado, juntamente com outro colega e ami-
go, o Morgado, com o Prémio de melhor aluno do Colégio, em 1988/89 .
.
quando aconteceu finalmente, o 25 de Abril .
Para ele foi o verdadeiro dia da libertação, pois que nós
estávamos absorvidos a festejar aquela data, ainda des-
crentes e duvidosos do que estaria para vir, que até nos
esquecemos de lhe dar a papa .
Depois fomos à loja do Sr. Eduardo, já quase saqueada,
para conseguir-mos angariar, com dificuldade, alguma
coisa de comer .
Tinha começado uma nova era, o mundo velho ia morrer .
Eram grandes as esperanças, maiores as promessas .
Tudo parecia valer a pena, mesmo que a alma fosse um
pouco pequena .
O Mário Pedro foi criado numa atmosfera aberta e tole-
rante, em que o sonho estava sempre à espreita .
Costumávamos dizer por graça, que tinha sido vacinado ,
logo em pequenino, com as vacinas do Benfica e do PS,
inoculadas pelo Rodrigues, o namorado da Júlia, emprega-
da da nossa casa, e cuidadora do rapaz .
A vacina do Benfica pegou logo, a do PS levou algum tempo
a fazer o seu caminho .
Miúdo espertalhaço, convivia muito com os adultos e discu-
tia acaloradamente com os da sua idade .
Ouvia atentamente as opiniões dos pais, e depois fazia o seu
julgamento .
Quer eu, quer a mãe, navegávamos noutras águas ideológicas .
No 25 de Abril, desde sempre que saíamos os três de casa, bem
cedo, e percorríamos e participávamos em 3 manifestações,ca-
da côr, seu paladar .
De manhã íamos ao PCP, depois do almoço curtíamos a festa
do PS, à noite atacávamos a manif da esquerdalhada .
.
Só mais tarde, então já no Colégio Moderno, é que começou a de-
senvolver uma militância política mais séria .
Tinha como modelos reais, Mário Soares e Maria Barroso, e a malta
camarada que com eles iniciavam então a vida partidária .
Foi militantemente subindo todos os degraus da Jota, e ràpidamente
se tornou um líder natural na estrutura do Partido Socialista .
Atarefava--se em reuniões partidárias sem fim, organizava listas e elei-
çôes, preparava os programas e os textos, conduzia os trabalhos com
eficiêcia e a consideração de muitos dos seus camaradas, com os mais
jovens e com outros já de idade avançada .
Vivia cada Congresso, cada Distrital, cada reunião das secções, com o
mesmo empenho e entusiasmo, rigoroso, com o dom da palavra e a
capacidade de congregar vontades e gerir com facilidade as propostas
e projectos a que se propunha .
Foi desde o seu início, um dos mentores da
Tertúlia do Martinho da Arcada,
uma espécie de Governo Sombra do grupo liderado por António José
Seguro, juntamente com outros amigos, entre os quais saliento o Álvaro
Beleza, o David Santos, o Ricardo, o Franco, o Pedro Antão e a Elsa, a
Carmen, o Jorjão, o António, o Paulo, e outros que a minha memória já
não retém, mas que estão referidos no cabeçalho do Blog . Entretanto,
em homenagem ao Mário Pedro, o Grupo passou a designar-se
Tertúlia do Garcia
que continua a reunir-se, embora com menos regularidade, e costuma
agregar, como convidados, gente importante do PS, ou de outros qua-
drantes .
O Mário integrou a primeira delegação portuguesa ao Parlamento Euro-
peu Jovem, realizada em Versailles, em nome do Colégio Moderno de Lis-
boa .
Para mostrar a sua categoria, como activista político e também como
aluno, o Mário Pedro foi galardoado, juntamente com outro colega e ami-
go, o Morgado, com o Prémio de melhor aluno do Colégio, em 1988/89 .
.
domingo, 31 de dezembro de 2017
É a política, pá ...
Comecei muito cedo a interessar-me pele política,
ou melhor comecei a ter contacto com a injustiça,
a prepotência e a arbitrariedade .
Muito cedo já tinha percebido provado o sabor da
injustiça e do desamor .
Bem podia o padre da igreja tentar vender aquelas
ideias idiotas que nos tentavam inculcar como va-
cinas, que se practicássemos o bem, íamos direiti-
nhos para o Céu .
Tudo mentira, da grossa ...
Era apelidado de herege, judeu, madrasso, filho do
diabo, tudo nomes que me assentavam que nem uma
luva .
Foi então que comecei a canalizar a minha raiva e a
minha revolta, dar um significado à minha rebeldia,
e começar a estruturar a minha personalidade .
Foi com a minha ida para a Escola da Noite, em con-
tacto com os meus colegas mais velho, e provindos de
outras classes sociais, mais proletarizadas, que fui com-
preedendo a dureza das desigualdades e das afrontas
contra os mais desfavorecidos .
Como entender tais maldades, um menino a começar
a fazer-se homem, que estava habituado às lutas entre
índios e cowboys, entre polícias e ladrões, que faziam
o dia a dia, das nossas brincadeiras .
Comecei a sorver os ideais revolucionários, com a cam-
panha eleitoral do General Humberto Delgado, nos idos
de 1958, quando me apercebi do imenso apoio popular
que o General ia amealhando, fazendo sombra ao velho
Ditador Salazar .
Já então tinha tido contacto com as ideias comunistas, e
com os comunistas reais, que giravam à minha volta, na
Escola, nas fábricas e na vida real .
O Tortosendo, aldeia fabril paredes meias com a Covilhã,
era uma terra de operários da indústria têxtil, de gente
do Reviralho, oposicionistas convictos, muitos deles afec-
tos ao Partido Comunista, contra a religião e contra o sa-
lazarismo .
Era conhecida como a aldeia vermelha .
Convivi de perto com a gente das fábricas, mas por falta de
convicção (ou por cobardia), nunca fui engajado para o
PC, prezava demais a minha capacidade de crítica e o meu
posicionamento individual .
Fui sempre um fiel compagnon de route .
.
Foi então que ingressei na Universidade, IST, colheita de
1960 . Estive 10 anos no Lar do Técnico, uma escola de vir-
tudes, entre o Curso de Engenharia e a Tropa.
As Associações de Estudantes eram Universidades parale-
las, que nos ajudavam a abrir os olhos para a vida .
Militei nelas em diversas actividades, mas sempre com o cui-
dado de evitar a militância política .
Encostei-me ao MDP/CDE,
uma bengala do PCP .
Foi no Movimento Estudantil, onde vivi com paixão, muitos
dos melhores momentos da minha vida .
Era decididamente o olho do furacão, onde tudo acontecia .
Quando o meu Pai me levou para arranjar um quarto para
viver, quis o destino que me tivesse depositado directamente
no Lar da AEIST . Chegava a passar quase 24 horas no IST,
onde estudava, comia e dormia .Só saía do recinto, para me
deslocar da casa, para o estudo .
Voltei a direccionar a minha revolta, agora contra o Regime
Fascista, agora com a cabeça um pouco mais arrumada .
Era um aluno médio, sem grandes rasgos de inteligência .
Cumpria os serviços Mínimos .
O meu combate pela Liberdade nunca esmoreceu .
Aguardava que chegasse o tempo certo, para que se tornas-
se realidade .
E ele chegou com o 25 de Abril .
.
.
ou melhor comecei a ter contacto com a injustiça,
a prepotência e a arbitrariedade .
Muito cedo já tinha percebido provado o sabor da
injustiça e do desamor .
Bem podia o padre da igreja tentar vender aquelas
ideias idiotas que nos tentavam inculcar como va-
cinas, que se practicássemos o bem, íamos direiti-
nhos para o Céu .
Tudo mentira, da grossa ...
Era apelidado de herege, judeu, madrasso, filho do
diabo, tudo nomes que me assentavam que nem uma
luva .
Foi então que comecei a canalizar a minha raiva e a
minha revolta, dar um significado à minha rebeldia,
e começar a estruturar a minha personalidade .
Foi com a minha ida para a Escola da Noite, em con-
tacto com os meus colegas mais velho, e provindos de
outras classes sociais, mais proletarizadas, que fui com-
preedendo a dureza das desigualdades e das afrontas
contra os mais desfavorecidos .
Como entender tais maldades, um menino a começar
a fazer-se homem, que estava habituado às lutas entre
índios e cowboys, entre polícias e ladrões, que faziam
o dia a dia, das nossas brincadeiras .
Comecei a sorver os ideais revolucionários, com a cam-
panha eleitoral do General Humberto Delgado, nos idos
de 1958, quando me apercebi do imenso apoio popular
que o General ia amealhando, fazendo sombra ao velho
Ditador Salazar .
Já então tinha tido contacto com as ideias comunistas, e
com os comunistas reais, que giravam à minha volta, na
Escola, nas fábricas e na vida real .
O Tortosendo, aldeia fabril paredes meias com a Covilhã,
era uma terra de operários da indústria têxtil, de gente
do Reviralho, oposicionistas convictos, muitos deles afec-
tos ao Partido Comunista, contra a religião e contra o sa-
lazarismo .
Era conhecida como a aldeia vermelha .
Convivi de perto com a gente das fábricas, mas por falta de
convicção (ou por cobardia), nunca fui engajado para o
PC, prezava demais a minha capacidade de crítica e o meu
posicionamento individual .
Fui sempre um fiel compagnon de route .
.
Foi então que ingressei na Universidade, IST, colheita de
1960 . Estive 10 anos no Lar do Técnico, uma escola de vir-
tudes, entre o Curso de Engenharia e a Tropa.
As Associações de Estudantes eram Universidades parale-
las, que nos ajudavam a abrir os olhos para a vida .
Militei nelas em diversas actividades, mas sempre com o cui-
dado de evitar a militância política .
Encostei-me ao MDP/CDE,
uma bengala do PCP .
Foi no Movimento Estudantil, onde vivi com paixão, muitos
dos melhores momentos da minha vida .
Era decididamente o olho do furacão, onde tudo acontecia .
Quando o meu Pai me levou para arranjar um quarto para
viver, quis o destino que me tivesse depositado directamente
no Lar da AEIST . Chegava a passar quase 24 horas no IST,
onde estudava, comia e dormia .Só saía do recinto, para me
deslocar da casa, para o estudo .
Voltei a direccionar a minha revolta, agora contra o Regime
Fascista, agora com a cabeça um pouco mais arrumada .
Era um aluno médio, sem grandes rasgos de inteligência .
Cumpria os serviços Mínimos .
O meu combate pela Liberdade nunca esmoreceu .
Aguardava que chegasse o tempo certo, para que se tornas-
se realidade .
E ele chegou com o 25 de Abril .
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terça-feira, 26 de dezembro de 2017
Os calções .
Eu fui de Lisboa a Sintra,,
a casa da Tia Jacinta
para me fazer uns calções;
mas a pobre criatura
esqueceu-se da abertura,
para as minhas precisões .
.
Desde miúdo, que carrego comigo uma dúvida sistemática,
será que as pessoas crescem para cima ou para baixo .
Se crescem para cima, porquê então, ao aumentar a idade,
todos os anos ficava com mais pernas à mostra ?!.
Portanto, só podia crescer para cima .
Tenho outro problema antigo, de solução mais fácil, ainda
que de resolução mais elaborada .
Lá em casa somos 5 irmãos, quatro deles nascidos em esca-
dinha, com intervalos de 1 ano a ano e meio .
Todos os anos, por volta do começo das aulas, a roupa sofria
um pequeno improvement - era a altura de acertar e mudar
os calções . A roupa passava de uns para os outros, o mais
velho tinha direito a uns calções novos, e todos recebiam, à
vez os dos outros mais novos .
E assim, sucessivamente .
O irmão mais novo, ao fim das 3 mudanças, tinha que levar
fundilhos no cú .
No poupar, é que estava o ganho .
Já naquele tempo se tirava proveito da arte da reciclagem,
invocando a lei dos 3 RR.s :
- Recuperar
- Remendar
- Reutilizar .
.
Um outro estratagema, era preservar os livros de estudo,
de mão em mão, chegando cada um dos mais utilizados, por
exemplo, os livros de Filosofia e Matemática, a percorrer as
aulas, dez ou doze anos .
No fim, por mais dedicação que houvesse, os papéis iam di-
rectamente para o lixo .
.
a casa da Tia Jacinta
para me fazer uns calções;
mas a pobre criatura
esqueceu-se da abertura,
para as minhas precisões .
.
Desde miúdo, que carrego comigo uma dúvida sistemática,
será que as pessoas crescem para cima ou para baixo .
Se crescem para cima, porquê então, ao aumentar a idade,
todos os anos ficava com mais pernas à mostra ?!.
Portanto, só podia crescer para cima .
Tenho outro problema antigo, de solução mais fácil, ainda
que de resolução mais elaborada .
Lá em casa somos 5 irmãos, quatro deles nascidos em esca-
dinha, com intervalos de 1 ano a ano e meio .
Todos os anos, por volta do começo das aulas, a roupa sofria
um pequeno improvement - era a altura de acertar e mudar
os calções . A roupa passava de uns para os outros, o mais
velho tinha direito a uns calções novos, e todos recebiam, à
vez os dos outros mais novos .
E assim, sucessivamente .
O irmão mais novo, ao fim das 3 mudanças, tinha que levar
fundilhos no cú .
No poupar, é que estava o ganho .
Já naquele tempo se tirava proveito da arte da reciclagem,
invocando a lei dos 3 RR.s :
- Recuperar
- Remendar
- Reutilizar .
.
Um outro estratagema, era preservar os livros de estudo,
de mão em mão, chegando cada um dos mais utilizados, por
exemplo, os livros de Filosofia e Matemática, a percorrer as
aulas, dez ou doze anos .
No fim, por mais dedicação que houvesse, os papéis iam di-
rectamente para o lixo .
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segunda-feira, 25 de dezembro de 2017
O futuro é das crianças .
O jogo do ganha e perde .
Já não me lembro muito bem da mecânica do jogo,
nem das razões por que desejávamos perder e qual
o incentivo que nos levava à derrota .
Havia outra versão do jogo que consistia em querer
sempre ganhar, qualquer que fossem as incidências
do jogo . A luta era feroz, quase sempre acabava em
porrada, mas ao menos, quem levasse no focinho aca-
bava por ganhar moralmente, mesmo com a tromba
escaqueirada .
Ainda noutra variante do jogo, acabávam todos a per-
der, mesmo ganhando .
Era aí que entrava o dono da bola, agarrava nela e le-
vava-a para casa e dizia :
Acaba o jogo e ninguém joga mais,
que eu é que sou o dono da bola ...
Parecem jogos de crianças,
mas então observem os jogadores mais velhos, os
putos crescidos:
O Cavaco e o Passos, ganharam as eleições, mas per-
deram o Governo;
O Costa perdeu as eleições, mas ficou a governar ;
Os independentistas da Catalunha já ganharam, pe-
lo menos três vezes as eleições, e o batoteiro do Ra-
goy e da sua quadrilha, nunca deixam jogar .
Dizem que a bola é deles e não deixam ninguém jo-
gar ...
Além disso, estão sempre a aldrabar as regras do
jogo .
Devia haver alguém que lhe partissse as cangalhas...
e pusesse o menino no castigo ...
.
Já não me lembro muito bem da mecânica do jogo,
nem das razões por que desejávamos perder e qual
o incentivo que nos levava à derrota .
Havia outra versão do jogo que consistia em querer
sempre ganhar, qualquer que fossem as incidências
do jogo . A luta era feroz, quase sempre acabava em
porrada, mas ao menos, quem levasse no focinho aca-
bava por ganhar moralmente, mesmo com a tromba
escaqueirada .
Ainda noutra variante do jogo, acabávam todos a per-
der, mesmo ganhando .
Era aí que entrava o dono da bola, agarrava nela e le-
vava-a para casa e dizia :
Acaba o jogo e ninguém joga mais,
que eu é que sou o dono da bola ...
Parecem jogos de crianças,
mas então observem os jogadores mais velhos, os
putos crescidos:
O Cavaco e o Passos, ganharam as eleições, mas per-
deram o Governo;
O Costa perdeu as eleições, mas ficou a governar ;
Os independentistas da Catalunha já ganharam, pe-
lo menos três vezes as eleições, e o batoteiro do Ra-
goy e da sua quadrilha, nunca deixam jogar .
Dizem que a bola é deles e não deixam ninguém jo-
gar ...
Além disso, estão sempre a aldrabar as regras do
jogo .
Devia haver alguém que lhe partissse as cangalhas...
e pusesse o menino no castigo ...
.
sábado, 23 de dezembro de 2017
A minha gata Branquinha .
A Branquinha foi a coisa melhor que me aconteceu
nos últimos tempos .
Quando veio para nossa casa era um pequeno novelo
de lã, pouco maior do que a minha mão, branca e le-
ve como a neve .
É uma gata Red Point .
Toda branca, só por volta do ano de idade começou
a ganhar alguma coloração acastanhada nas suas ex-
tremidades .
Muito rebelde de início, esperta brincalhona, faz-nos
companhia o dia inteiro .
Foi apanhada por amigos nossos, caçada por ser a ma-
is afoita da ninhada .
Está sempre à nossa espera, pressente a nossa chegada,
mesmo que esteja ferrada a dormir .
Corre, pula, salta, brinca com tudo o que tiver à mão,
joga à bola, come bem e dorme e ainda melhor .
Passa o tempo a fazer-me guarda de honra, anda sem-
pre atrás dos donos, espera que eu me levante para ir
comer, aguarda pela dona à porta da casa de banho,
e depois põe-se em posição de ser devidamente escova-
da para retirar o pelo .
O dia começa muito cedo, mas espera pacientemente
pelo dono, mal pressente que eu estou acordado .
Gosta de ir à rua, que é a primeira metade do patamar
do nosso 4ª. andar, depois vem e retoma o resto da co-
mida . Refila se é agarrada, mas depois sabe-lhe bem
estar um pouco ao colo, a ver as janelas .
Já há muito tempo que dorme ao meu colo, como se
fosse uma criança . Antes de dormir, toma um grande ,
banho, acabando por vezes a lamber-me a mim, de ca-
minho .
A gatita é viciada em comida, corre sempre para a co-
zinha, à espera que lhe cai no prato mais um pouco de
bolachas .
Eu procuro ser exigente com o animal, mas a minha uu-
lher atura-lhe o vício .
Sabe-se que as mulheres são um pouco mais permissivas
e o animal vai aumentando de peso .
É preciso fazer dieta .
É muito asseada, nunca sujou nada, só que às vezes, a fa-
zer as suas necessidades, não acerta com o penico .
A fase de arranhar está a diminuir, mas ainda joga as un-
has, por instinto .
Há dias, zangou-se com a veterinária, e foi bom de ver a
luta entre as duas , luta que a gata ganhou aos pontos,
pois acabou por não deixar cortar as garras todas .
.
nos últimos tempos .
Quando veio para nossa casa era um pequeno novelo
de lã, pouco maior do que a minha mão, branca e le-
ve como a neve .
É uma gata Red Point .
Toda branca, só por volta do ano de idade começou
a ganhar alguma coloração acastanhada nas suas ex-
tremidades .
Muito rebelde de início, esperta brincalhona, faz-nos
companhia o dia inteiro .
Foi apanhada por amigos nossos, caçada por ser a ma-
is afoita da ninhada .
Está sempre à nossa espera, pressente a nossa chegada,
mesmo que esteja ferrada a dormir .
Corre, pula, salta, brinca com tudo o que tiver à mão,
joga à bola, come bem e dorme e ainda melhor .
Passa o tempo a fazer-me guarda de honra, anda sem-
pre atrás dos donos, espera que eu me levante para ir
comer, aguarda pela dona à porta da casa de banho,
e depois põe-se em posição de ser devidamente escova-
da para retirar o pelo .
O dia começa muito cedo, mas espera pacientemente
pelo dono, mal pressente que eu estou acordado .
Gosta de ir à rua, que é a primeira metade do patamar
do nosso 4ª. andar, depois vem e retoma o resto da co-
mida . Refila se é agarrada, mas depois sabe-lhe bem
estar um pouco ao colo, a ver as janelas .
Já há muito tempo que dorme ao meu colo, como se
fosse uma criança . Antes de dormir, toma um grande ,
banho, acabando por vezes a lamber-me a mim, de ca-
minho .
A gatita é viciada em comida, corre sempre para a co-
zinha, à espera que lhe cai no prato mais um pouco de
bolachas .
Eu procuro ser exigente com o animal, mas a minha uu-
lher atura-lhe o vício .
Sabe-se que as mulheres são um pouco mais permissivas
e o animal vai aumentando de peso .
É preciso fazer dieta .
É muito asseada, nunca sujou nada, só que às vezes, a fa-
zer as suas necessidades, não acerta com o penico .
A fase de arranhar está a diminuir, mas ainda joga as un-
has, por instinto .
Há dias, zangou-se com a veterinária, e foi bom de ver a
luta entre as duas , luta que a gata ganhou aos pontos,
pois acabou por não deixar cortar as garras todas .
.
terça-feira, 19 de dezembro de 2017
DEZEMBRO .
O que mais me prende à vida
Não é o amor de ninguém
É que a morte de esquecida
Deixa o mal e leva o bem
Dezembro é o mês de todas as desgraças,
negro de breu, de luto e de morte .
Tudo se esconde, até o Sol se apaga, por longas jornadas .
Os pássaros calam-se, para não incomodar os que já par-
tiram
A tristeza invade tudo .
Que importa a Festa , os presentes, as guloseimas, as ra-
banadas, a Consoada, as conversas salteadas, o riso conta-
giante, a fome nunca saciada, e às, vezes um grãozito na
asa .
As crianças, é que sonham com o futuro e com a alegria,
a brincadeira e as gargalhadas que nunca param.
É o tempo é delas .
Os adultos, vivem da nostalgia
do passado já distante .
Lembram a saudade dos que já partiram, deixando um
enorme vazio dentro de nós .
Recordam outros Natais, passados à lareira, as crianças
que esvoaçam pela casa adentro, numa correria desenfrea-
da, sem vontade de se recolher ao ninho .
Antigamente, quando era menino, as prendas vinham pe-
la chamiané dentro e caíam dentro de uma meia, só apa-
reciam de manhã cedinho .
Ainda cheguei a crer no Pai Natal, mas por muito poucos
anos, porque ele esquecia-se de mim, e nunca me trazia o
brinquedo com que levava o ano inteiro a cogitar .
Depois, quando acertaram a hora, passou a despachar-se
mais, choviam brinquedos aos montes, era quando eu me
recolhia em silêncio .
Eu estava sempre a querer ir dormir .
A jogatana continuava noite dentro, entre miúdos e graú-
dos, com grande batota à mistura .
No dia seguinte, bem cedo, percorria as ruas, em busca de
uma bica redentora .
.
Não é o amor de ninguém
É que a morte de esquecida
Deixa o mal e leva o bem
Dezembro é o mês de todas as desgraças,
negro de breu, de luto e de morte .
Tudo se esconde, até o Sol se apaga, por longas jornadas .
Os pássaros calam-se, para não incomodar os que já par-
tiram
A tristeza invade tudo .
Que importa a Festa , os presentes, as guloseimas, as ra-
banadas, a Consoada, as conversas salteadas, o riso conta-
giante, a fome nunca saciada, e às, vezes um grãozito na
asa .
As crianças, é que sonham com o futuro e com a alegria,
a brincadeira e as gargalhadas que nunca param.
É o tempo é delas .
Os adultos, vivem da nostalgia
do passado já distante .
Lembram a saudade dos que já partiram, deixando um
enorme vazio dentro de nós .
Recordam outros Natais, passados à lareira, as crianças
que esvoaçam pela casa adentro, numa correria desenfrea-
da, sem vontade de se recolher ao ninho .
Antigamente, quando era menino, as prendas vinham pe-
la chamiané dentro e caíam dentro de uma meia, só apa-
reciam de manhã cedinho .
Ainda cheguei a crer no Pai Natal, mas por muito poucos
anos, porque ele esquecia-se de mim, e nunca me trazia o
brinquedo com que levava o ano inteiro a cogitar .
Depois, quando acertaram a hora, passou a despachar-se
mais, choviam brinquedos aos montes, era quando eu me
recolhia em silêncio .
Eu estava sempre a querer ir dormir .
A jogatana continuava noite dentro, entre miúdos e graú-
dos, com grande batota à mistura .
No dia seguinte, bem cedo, percorria as ruas, em busca de
uma bica redentora .
.
domingo, 17 de dezembro de 2017
A LAREIRA .
Com dois pauzinhos
se faz uma cabana .
Primeiro que tudo é preciso que haja frio .
Vontade de fazer o fogo .
De brincar com o fogo .
Há gente que não está para aí virada .
São uns encalorados .
Com medo de se queimar .
Outros não têm fósforos, não sabem fazer o lume, não
conhecem o prazer que o quentinho dá e nem sequer
arriscam o mínimo .
Mas a necessidade aguça o engenho .
Escolhe-se um sítio recôndito,
bem aconchegadinho, longe dos mirones, e preparam-se
os pauzinhos cuidadosamente, de modo a fazer num pe-
queno monte, junta-se um pouco de papel e trabalha-se
de modo a deixar passar o ar, para permitir uma boa
combustão.
Chegado o momento, quando se está no ponto, saca-se
da caixa de fósforos e fricciona-se com decisão, mas sem
quebrar o pauzindo, pois podem queimar-se os dedos .
Às vezes não acende à primeira .
Tem que tentar-se de novo .
Eis que o fogo espirra
com alguma violência
e está preparada a chama para nos embalar,
e nos saciar os sentidos .
Depois, é a gente deixar-se ficar a curtir a lareira, até nos
consolar-mos à vontade .
Parece difícil,
mas com um pouco de jeito, chegamos lá .
.
se faz uma cabana .
Primeiro que tudo é preciso que haja frio .
Vontade de fazer o fogo .
De brincar com o fogo .
Há gente que não está para aí virada .
São uns encalorados .
Com medo de se queimar .
Outros não têm fósforos, não sabem fazer o lume, não
conhecem o prazer que o quentinho dá e nem sequer
arriscam o mínimo .
Mas a necessidade aguça o engenho .
Escolhe-se um sítio recôndito,
bem aconchegadinho, longe dos mirones, e preparam-se
os pauzinhos cuidadosamente, de modo a fazer num pe-
queno monte, junta-se um pouco de papel e trabalha-se
de modo a deixar passar o ar, para permitir uma boa
combustão.
Chegado o momento, quando se está no ponto, saca-se
da caixa de fósforos e fricciona-se com decisão, mas sem
quebrar o pauzindo, pois podem queimar-se os dedos .
Às vezes não acende à primeira .
Tem que tentar-se de novo .
Eis que o fogo espirra
com alguma violência
e está preparada a chama para nos embalar,
e nos saciar os sentidos .
Depois, é a gente deixar-se ficar a curtir a lareira, até nos
consolar-mos à vontade .
Parece difícil,
mas com um pouco de jeito, chegamos lá .
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sábado, 16 de dezembro de 2017
A Invenção do fogo .
No início da Humanidade, deve ter sido com enorme estupor,
que os homens tomaram conhecimento com o fogo .
Talvez aterrorizados com a grandeza dos vulcões, ou quando
assistiam espavoridos, das floreostas em chamas, as criaturas
tinham que competir com os animais selvagens .
Era um pânico atávico .
As criaturas fugiam em pânico e refugiavam-se nas grutas im-
provisadas .
Ainda hoje os lobos fogem fogo, apesar de a fome que os assaca .
Cobertos com pelos, para atenuar o frio, aninhavam-se em gru-
pos e refugiavam-se em zonas mais temperadas, para consegui-
rem sobreviver .
Só muito mais tarde, os humanos começaram a perceber, que o
fogo que queimava, poderia ser usado em proveito próprio, se
usado com conta, peso e medida, podendo ajudar a amenizar a
rude vida das cavernas .
Foi sem querer, que o homem deve ter assistido ao raio provo-
cado pela fricção de duas pedras, e conseguiu acender uma pe-
quena fogueira .
Porventura, seria a mais espantosa invenção humana .
A descoberta do fogo .
Aprendeu também, que o fogo era importante demais, para que
se pudesse brincar inavertidamente com essa poderosa força, que
impulsionou a nossa existência .
Ainda hoje, se usa a expressão :
Andas a brincar com o fogo,
ainda te queimas .
Claro que a expressão tem outro significado mais escondido .
Brincar com o fogo é arriscar, é ir mais além, é tentar descobrir
novas possibilidades, para as coisas, e para as pessoas .
Quem não arrisca,
não petisca .
Ainda a descoberta do fogo .
Descoberta do fogo, que nada .
O fogo já lá estava, há milhões de anos .
Passou a existir quando demos por ele .
.
É como acender uma lareira .
Não se pode avançar à bruta .
Temos que ir tentando cuidadosamente, e encontrar os gestos com
todo o cuidado .
Mas primeiro que tudo, existe a vontade expressa de preparar o fogo .
.
que os homens tomaram conhecimento com o fogo .
Talvez aterrorizados com a grandeza dos vulcões, ou quando
assistiam espavoridos, das floreostas em chamas, as criaturas
tinham que competir com os animais selvagens .
Era um pânico atávico .
As criaturas fugiam em pânico e refugiavam-se nas grutas im-
provisadas .
Ainda hoje os lobos fogem fogo, apesar de a fome que os assaca .
pos e refugiavam-se em zonas mais temperadas, para consegui-
rem sobreviver .
Só muito mais tarde, os humanos começaram a perceber, que o
fogo que queimava, poderia ser usado em proveito próprio, se
usado com conta, peso e medida, podendo ajudar a amenizar a
rude vida das cavernas .
Foi sem querer, que o homem deve ter assistido ao raio provo-
cado pela fricção de duas pedras, e conseguiu acender uma pe-
quena fogueira .
Porventura, seria a mais espantosa invenção humana .
A descoberta do fogo .
Aprendeu também, que o fogo era importante demais, para que
se pudesse brincar inavertidamente com essa poderosa força, que
impulsionou a nossa existência .
Ainda hoje, se usa a expressão :
Andas a brincar com o fogo,
ainda te queimas .
Claro que a expressão tem outro significado mais escondido .
Brincar com o fogo é arriscar, é ir mais além, é tentar descobrir
novas possibilidades, para as coisas, e para as pessoas .
Quem não arrisca,
não petisca .
Ainda a descoberta do fogo .
Descoberta do fogo, que nada .
O fogo já lá estava, há milhões de anos .
Passou a existir quando demos por ele .
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É como acender uma lareira .
Não se pode avançar à bruta .
Temos que ir tentando cuidadosamente, e encontrar os gestos com
todo o cuidado .
Mas primeiro que tudo, existe a vontade expressa de preparar o fogo .
.
quinta-feira, 14 de dezembro de 2017
terça-feira, 12 de dezembro de 2017
As lutas de classe .
São todos iguais,
mas há uns mais iguais do que outros .
Estava um cordeiro a beber água num regato,
quando surgiu um lobo esfomeado .
O lobo disse ao cordeiro :
-Pira-te daí, que estás a sujar a minha água .
Como? , disse o cordeiro,
- Se a água corre de cima para baixo ...
-Se não foi agora, foi já no ano passado,
disse o lobo mau, já afiando os dentes .
-Mas eu só tenho um ano de idade,
não fui eu, com certeza, disse o bicho, muito assustado ....
E o lobo, furioso, foi ladrando, e abocanhou o borrego :
- É pá, não me irrites mais, disse a fera começando a devorar
o pequeno animal,
se não foste tu que sujaste a água, então foi o teu pai ...
e devotou o cordeiro .
Quem não quer ser lobo,
não lhe veste a pele ...
.
mas há uns mais iguais do que outros .
Estava um cordeiro a beber água num regato,
quando surgiu um lobo esfomeado .
O lobo disse ao cordeiro :
-Pira-te daí, que estás a sujar a minha água .
Como? , disse o cordeiro,
- Se a água corre de cima para baixo ...
-Se não foi agora, foi já no ano passado,
disse o lobo mau, já afiando os dentes .
-Mas eu só tenho um ano de idade,
não fui eu, com certeza, disse o bicho, muito assustado ....
E o lobo, furioso, foi ladrando, e abocanhou o borrego :
- É pá, não me irrites mais, disse a fera começando a devorar
o pequeno animal,
se não foste tu que sujaste a água, então foi o teu pai ...
e devotou o cordeiro .
Quem não quer ser lobo,
não lhe veste a pele ...
.
domingo, 3 de dezembro de 2017
A MINHA MÃE .
A vida,
foi a minha MÃE que ma deu .
É muito difícil evocar a minha Mãe, a Maria Olinda,
como o meu Pai, carinhosamente, a tratava .
Eu sempre a tratei por
Mãezinha .
Ela sim, é que teve uma vida difícil, complicada, dividida
com mil cuidados, entre os cinco filhos que criou, e o ca-
rinho do meu Pai .
Vivia-se naquela época com enorme austeridade .
Esquecida pelos meus avós paternos, que nunca aceitaram
casamento, por questões de natureza religiosas .
Casou muito nova, com os filhos a sucederem-se, uns a se-
guir aos outros, sem ser tempo de intervalar um pouco,
Tenho uma recordação pouco nítida dessa altura, com os ir-
mãos muito pequenos, e com as deslocações que os meus
Pais faziam, por razões de emprego do meu Pai, e que às ve-
zes a acompanhava .
Vivia deste modo, um pouco ao Deus
dará,
sempre enquadrado pela família mais chegada .
Sempre me senti um pouco abandonado,
e fui desmamado muito cedo, que outro irmão já estava à
espera .
Mais tarde, tudo se viria a complicar muito mais, com a gi-
nástica que os meus Pais faziam para encontrar colocação
escolar, para cinco filhos, que deambulavam de escola, pa-
ra escola e de terra, para terra, como se se tratasse de uma
gincana vital .
Só muito mais tarde tomei verdadeira consciência das difi-
culdades e das provações por que a minha Mãe (e o meu
Pai, claro), foram passando, todos esses anos .
Entre gravidezes e partos, e toda uma série e deslocações, a
ajudar a grandes problemas económicos, não foi nada fácil a
vida da minha querida Mãe .
O roteiro das andanças da minha família começava em Seia,
a terra de toda a tribo, e passava por Lisbos, várias vezes, pelo
Tortosendo, Covilhã, Castelo Branco, Guarda, e mais outra
vez, Lisboa .
Andávamos sempre com a casa às costas, como os caracóis .
A mudança de habitação era uma autêntica operação mili-
tar . Uma das minhas missões, era desaparafusar e voltar a
aparafusar os parafusos das camas em que dormíamos, já
gastos com o uso .
Quem tem filhos, tem cadilhos,
quem os não, cadilhos tem .
Cada filho é sempre único .
Todos são filhos únicos, mas o último a nascer, é mais único
do que os outros . E esse é o rei durante um certo tempo, e re-
cebe as suas benesses .
Logo, logo, vinha outro, que depressa se tinha que fazer à vida .
O meu Pai tirou a 4ª. classe, e aos dez anos começou a trabal-
har, no escritório do advogado Dr. Calixto Pires, uma pessoa
de grande categoria e prestígio, que desde logo o adoptou para
seu ajudante .
Mais tarde, ele e esposa, a Dona Noémia, viriam a ser os padri-
nhos de casamento dos meus Pais .
A minha Mãe ( ainda me lembro de a ouvir cantar no côro da
Igreja de Seia), era a primeira solista, com uma voz maravilho-
sa, diziam as pessoas da família e os amigos mais chegados, que
só a Amália Rodrigues cantava melhor .
Cantava todo o tipo de música portuguesa e as mais conhecidas
da música internacional, mas a sua grande paixão era o Fado .
.
Quase toda a minha família, quer do lado do meu Pai, quer do
lado da minha Mãe, tinha vocação para a música
O meu Avô paterno, José Alves Garcia, era exímio a tocar a con-
certina, o antepassado do acordeão .
O meu Pai, aos dez anos, era o primeiro clarineta na Banda de
Seia .
Os meus tios e tias, elas cantavam quase todas, e eram muitas,
na Igreja . Eles distribuia-se pelos mais varidados instrumentos ,
sobretudo os de sopro . Lembro-me do meu tio António, que to-
cava trombone .
O meu Pai era o homem dos sete
instrumentos .
Na altura, havia a moda chamados conjuntos de Jazz, que abril-
hantavam as festas na Vila e por todo o Concelho de Seia .
O meu Pai, tanto quanto eu me lembro, dedicou-se de seguida ao
saxofone, num dos grupos com maior sucesso desse tempo, que se
designava o ROMPE E RASGA , uma verdadeira preciosidade,
um nome tirado do futuro, bem à maneira à maneira dos moder-
nos Grupos de Rock .
Não me recordo muito bem como surgiram láem casa os instru-
mentos de corda . Lembro-me de durante as minha escavações na
loja do meu Avô, que tudo albergava e onde eu passava longas es-
tadias de pesquisa, onde descobria coisas espantosas, ter encontra-
do um banjo, uma viola e um bandolim .
Portanto é porque era normal que alguém os tocasse .
* Mas deve ter sido em Lisboa, quando o meu Pai trabalhava num
armazém de lanifícios, na Rua Bernardim Ribeiro, onde vivia
comoutros hóspedes, que começou a tocar guitarra, acompanhando
alguns cantores, entre os quais, o nosso grande amigo, o senhor
Francisco Silva, dono de uma voz espantosa e que cantava Ópera
no São Carlos, como amador .
Seriam dessa altura, as grandes farras e cantorias, onde o Pai Plá-
cido, desenvolveu a técnica de tocar viola, e depois guitarra, a qual
viria a ter um lugar importante na nossa vida .
O meu chegou a ter lições com os melhores guitarristas de Fado,
de Lisboa, e começou a frequentar as várias casas de, e, por vezes,
a tocar com outros guitarristas, melhorando a sua perfomance ,
experiência que iria ser importante mais tarde .
.
Tinha terminado a nossa longa e difícil vida de transumância, pelo
menos para os meus Pais .
Havíamos um dia partido de Seia , passámos 2 ou 3 vezes por Lis-
boa, e, quando o meu Pai se fixou no Tortosendo, ´para trabalhar
na fábrica de lanifícios dos Pontífices, aí poisámos um ano.
Depois experimentámos um ano um ano em Castelo Branco, estabe-
lecemo-nos na Covilhã, após termos vivido em 4 casas no Tortosendo .
Com a construção da nossa casa naquela aldeia vermelha, lá aterrá-
mos de vez .
Muito confuso, não é ?.
Agora tentem só uma aproximação à realidade, para terem uma ideia
do esforço feito por todos nós, e, em especial, pela minha Mãe .
Tortosendo
era o que agora chamaríamos um study case, com cerca de 20 fábricas,
apitando, desalmadamente vezes sem conta, de manhã até à tardinha,
pontuando ferozmente os turnos do trabalho fabril .
Tinhamos agora uma casa nossa, novinha em
folha, com quintal e tudo,
muitos cães, abelhas, garagem, um enorme jar-
dim, um poço e até uma adega .
Tudo à maneira,
pena foi que o sonho tão esforçadamente erguido, tenha demorado tão
pouco tempo a gozar ...
Entretanto, a música e o canto tinham feito o seu caminho .
Quase todos os dias havia ensaio dos Fados e Guitarradas .
O ensino do solfejo e dos instrumentos há muito que se processava, com
a minha Mãe a cantar os fados que o meu Pai mais gostava, acompanha-
dos por dois dos meus irmãos .
Até a minha Mãe aprendeu a tocar viola .
Foi a melhor fase da nossa vida .
.
Havia agora espaço para deixar colocar as peças do jogo da vida, sem ter
que andar sempre a andar a trocá-las física e emocionalmente, com medo
de nova mexida .
A criação de um grupo de fados e guitarradas
um conjunto musical, de que o meu Pai era o chefe da orquestra, tocando
Guitarra portuguesa e Acordeão, a minha Mão era a Solista principal e os
meusmãos, os guitarristas residentes .
Havia depois os elementos permanentes, que se tocavam em nossa casa, per-
mutando, por vezes, nas casas de uns, e do outros, trocando experiências,
e exibindo as suas habilidades .
Por vezes tocavam em certos lugares públicos, mas em ambientes familiares,
como era o caso do Ginásio da Covilhã .
Foi uma época mais sossegada, liberta de grandes problemas, e com os filhos já
crescidos, que a música veio a ter um papel central na nossa vida .
Digo nossa, impropriamente, pois que eu ficara libertado dessas ocupações mu-
sicais . Nunca tive propensão para o estudo das notas (musicais),mas gostava de
tocar acordeão, de um modo instintivo . Tocava de olhos fechados como o galo,
mas só com a mão esquerda .
Foi então que, inopinadamente o meu Pai me informou que eu ia estudar para a
escola da noite, para tirar o curso de Debuxador, uma espécie de Técnico têx-
til, Foi um grande choque, em todas as vertentes, mas duas tornaram-se vitais
para mim :
á não tinha que estudar música,
e passei a ter uma vida própria, que quase só
dependia de mim .
Contudo, as coisas ficaram muito baralhadas na minha cabeça .
De repente, deixei de ser adolescente,
e entrei no mundo dos adultos .
Mais uma vez, senti que a minha Mãe ia ficar mais longe de mim .
Preparava-me o pequeno almoço bastante cedo, e eu lá ia para o
Colégio Moderno, a subir a Calçada Alta .
Servia-me o jantar, que eu devorava à pressa e logo partia para a
Noite, para estudar à a noite .
Quando regressava, já toda a gente dormia,
mas a minha Mãe deixava-me sempre uma caneca com leite ou
com chá, para eu tomar , antes de me ir deitar .
Via-a tempo, mas ao menos eu sabia que ela estava lá, sempre co-
migo, para o que desse e viesse .
.
Tinha começado a minha fase de esquizofrenia .
De dia, rapaz,
homem, depois do jantar .
Sempre fui o filho mais chegado à minha Mãe .
Havia coisas que nos ligavam fortemente .
Não me lembro de alguma vez ter ralhado ou discutido com ela .
Havia sempre uma maneira de resolver os problemas, nem que fosse pelo
silêncio . Eram-mos duas pessoas muito reservadas e contidas, com dificul-
dade exprimir o que sentíamos .
Depois havia a partilha da ansiedade, sempre presente em tudo .
Era o único dos meus irmãos que largava a brincadeira, para fazer compan-
hia à minha Mãe, nas longas e sofridas horas de espera até que o meu Pai
chegasse a casa .
Era uma agonia, sobretudo quando ele ia para longe para a caça, ou quando
atravessava a Serra, cortando a tempestade, sempre em grande velocidade .
Uma vez fomos passar o Fim de Ano, a casa dos compadres dos meus Pais,
em Vila Franca das Naves, perto de Trancoso, (a terra do Bandarra) .
Regressámos tarde, em dois carros, que a meio do caminho se desencontra-
ram . O meu Pai guiou acelerou mais um pouco, e de repente ouvimos o car-
ro a arrastar pela estrada, completamente desequilibrado, e faiscando ao su-
bir a estrada, e numa curva . .
Tinha saltado uma das rodas traseiras, e andámos horas a encontrá-la .
Foi preciso tirar uma porca a cada roda, para podermos seguir até Seia , com
gandes cautelas, em 4 rodas .
Um amigo nosso, mecânico, ajudou-nos a resolver o problema, e chegámos ao
Tortosendo, já quase de dia .
O grande sonho da minha Mãe, era ser professora, sonho que nunca viria a
realizar, dadas as circunstâncias da vida .
Não foi professora oficial, mas foi ela que ensinou quase tudo, aos cinco fil-
hos . Sob a orientação e a mão firme do meu Pai, tudo fez, tudo ensinou, pa-
cientemente, desde o mamar, comer, vestir, comportar-se, o tomar banho, as
pri-meiras letras e as primeiras contas .
Arrumava a casa, fazia a comida, costurava pequenos arranjos. preparava a
comida para os cães, que eram quase família .
Não tinha tempo sequer, para descansar um pouco .
Desvelava-se a tratar das doenças, quase sempre havia um dos filhos a neces-
sitar de cuidados, levava-nos ao Dr. Melo, uma espécie de João Semana moder-
do, que nos atendia a todos com grande cuidado .
Os honorários eram pagos com as melhores peças de caça que o meu Pai tra-
zia para casa .
Como já escrevi anteriormente, foi no Tortosendo (e um pouco antes
na Covilhã) que os meus pais ganharam algum alento .
A lida da casa era agora mais fácil .
Mas a saúde ia minguando em, sentido contrário .
Lembro-me de, quando a minha Mãe ia à praça ou ao talho comigo,
ficava sempre por ali perto (aliás, na terra era tudo muito perto) e fica-
va à coca, à espera, para lhe trazer o saco das compras, durante a com-
prida e empinada rua até nossa casa .
O trabalho com os cães era pesado .
Os cães(e as espingardas) eram os instrumentos de trabalho indispensá-
veis para a procura de alimento para todos nós .
Numa primeira fase da nossa vida, diríamos que a caça e a pesca, eram
parte significativa da dieta familiar .
Mais tarde, o meu Pai, era um dos melhores caçadores do país, e tirava
proveito da sua habilidade, para percorrer a zona centro de Portugal,
para entrar nos torneios de Tiro aos Pratos, tendo ganho centenas de tro-
féus .
O problema de caçar muito e bem ( o meu Pai só caçava animais de penas,
pois os coelhos tinha sido dizimados e doentes com uma doença, chamada
Mixomatose, ainda não totalmente recuperada)
era a que a quantidade de bichos que tinha que ser limpa e depenada, e
isso era uma tarefa imensa, que em regra, calhava à minha Mãe .
Ás vezes, a mortandade calhava em tempo de férias, e então era ver a fa-
mília reunida em grupos, no concurso para ver quem depenava melhor e
mais depressa .
Depois, ao serão,
regressava em forte, a música,
até alta madrugada .
.
Um Anjo que desceu à Terra .
Desde nova muito nova, que a minha Mãe começou a cantar na Igreja, como solis-
ta do Côro da Igreja .
Talvez que esse facto tivesse contribuído para cimentar a união matrimonial .
Devia portanto nas festas e nos arraiais, e nos passeios à Serra, como por exemplo,
durante os magustos e almoçaradas na Senhora do Espinheiro, onde mais tarde ain-
da participei algumas vezes .
Não havia carros, e tudo era carregado serra acima, em alegre algazarra .
Passava-se o dia, comendo e bebendo, e a festa acabava por desembocar nas canti-
gar, até ao pôr do Sol .
Na igreja, até os não crentes entravam para ouvir cantar a minha Mãe, ao lado das
outras senhoras, entre elas várias das minhas tias .
Mais tarde, quando a vida se ajeitou um pouco,
já na Covilhã, o meu Pai começou a ensinar um pouco de técnica de canto r demúsica,
de modo a realçar, ainda mais a voz de Anjo, com que a minha Mãe fora dotada ,
Foi então, que os fados e guitarradas se guinaram a uma altura ímpar, nos saraus fami-
liares e e de grupos de amigos .
A minha ouvia as musicas, escolhia as letras,e o meu Pai arranjava as músicas
e seleccionava os tons das cantigas . Uma parceria que iria durar para sem-
pre .
Cantava tudo o que era música portuguesa, desde o folclore, até às musicas co-
nhecidas internacionalmente, mas a sua grande paixão era o Fado .
A Escola da Noite .
Parece um convite à má vida. Antes fosse .
Já tinha ouvido falar nos debuxadores .
O meu Pai dizia-me que era uma profissão muito bem paga, e que devia ser uma
coisa boa para mim .
Já tinha feito alguns desenhos no Liceu da Covilhã . Tinha feito o busto do Almei-
da Garret, para a festa de homenagem do grande escritor .
As pessoas gostaram .
Foi quando me mandou tirar o curso, na Escola Comercial e Industrial da Covilhã,
a Escola Melo e Castro .
Não foi difícil adaptar-me aos novos estudos, que não à vida de quase escravo, que
passei a ter .
Fiz alguns amigos, e, rapidamente me transformei no melhor aluno do Curso .
Eu era um menino, no meio dos adultos .
O ensino era muito técnico, mas para mim , muito fácil de apreender .
Tinham-me dado equivalência ao Ciclo Preparatório, de modo que entrei logo nas cadeiras
profissionais, num curso de 5 anos, que acumulava com o ensino do Liceu .
O CURSO DE MALANDRO .
Já tinha frequentado muitas das matérias que fazem um malandro,
com uma boa aprendizagem absorvida nas várias escolas primárias que havia frequentado .
Formei-me nessas matérias, no Colégio Moderno da Covilhã, que tinha uma merecida reputação .
Acabei por ser Doutorado na escola da noite .
A Vida, fez-me Catedrático em em Ciências da malandragem .
Transformei-me em malandro, cigano e vadio,
e tenho vindo a reciclar-me pela vida fora .
.
Com a minha vida à noite, algumas coisas melhoraram.
Deixei de ter que passear os cães, que me tinham arranjado uma série de pro-
blemas, tinha sido levado à Esquadra, porque um dos cães atirava-se às pessoas,
carteiros, fardas e mendigos .
O animal, depois de muitas peripécias, acabou por ser abatido no canil .
Acabou-se o tormento de aprender solfejo, o meu Pai não me deixava tocar acor-
deã, tinha que tocar às escondidas .
E deixei de ter que dar satisfações sobre o que fazia ou não, durante as horas do
meu longo dia .
Ganhei a chave de casa aos meus 14 anos, por uma razão picaresca .
Logo nos primeiros dias da Escola, tinha chegado tarde a casa, já toda a gente
dormia, e eu comecei a escalar o meu quarto, quando fui agarrado pelas pernas
por um guarda, e tive que fazer valer os meus direitos:
Ó senhor guarda, essa casa é minha,
s.f.f., toque lá a campaínha, para a minha Mãe me abrir a porta .
Foi remédio santo .
No dia seguinte, o meu Pai entregou-me a chave da casa .
Os serões musicais .
Os ensaios das cantorias e os concertos iam-se sucedendo na minha ausência,
em regra aos fins de semana .
Depois de tirada a mesa e arrumada a cozinha, ia-se compondo o cenário .
Sacavam-se os instrumentos e compunha-se a sala .
Apareciam os tocadores habituais :
O Torres Pereira, na guitarra, o lança na viola, e os meus dois irmãos tocadores .
Vinha o fadista Marchão, e aparecia sempre mais um ou dois comparsas, para
compôr o ramalhete .
O meu Pai passava da guitarra, para o acordeão,
Mas a minha Mãe era a Raínha da Festa .
Fados e guitarradas, de ouvir e chorar por mais .
Se eu gostava de a ouvir cantar .
Às vezes, quando a minha Mãe cantava nos agudos, eu ficava aflito, com o medo
de poder falha alguma nota .
Mas nunca aconteceu .
A minha Mãe ia cantando noite fora, até que o esforço despendido a vencesse .
Uma vez, pela Páscoa, em casa da minha avó, mãe da minha mãe, depois de ter
passado o Jesus beijado,
estava lançada a parte musical, juntavam-se mais ouvintes e participantes .
E o meu Pai dizia,
Maria Olinda,
canta aquela de que tu gostas tanto .
Começava com chave de oiro .
Uma vez. lá em Seia, o meu primo Zé Manel armou a aparelhagem e começou a gravar o espectáculo, com locução e tudo .
A cassete com a música da-minha Mãe, andou por aí às cambalhotas, mas ainda hoje reli-
giosamente uma cópia .
A minha Mãe foi um anjo
que desceu à terra para cantar .
.
O que mais me prende à vida
Não é o amor de ninguém
É que a morte de esquecida
Deixa o mal e leva o bem
Quando finalmente a minha Mãe começou a ter algum sossego, eis que a vida lhe viria a
pregar um enorme partida .
Os filhos estavam todos orientados nos seus estudos ou nas suas profissões, com a minha
Mãe gozando um merecido descanso e alguma melhoria de vida, eis que surge, como uma grande perturbação, o 25 de Abril, abençoado por quase todos, maldito para alguns, muito
poucos .
O Tortosendo era conhecido como a aldeia vermelha, com uma grande predominãncia de
adeptos do PCP .
Não sei ao certo o que se teria passado naqueles dias conturbados, mas correram boatos
reles contra o meu Pai .
Sei que a minha Mãe, já com a saúde muito abalada, passou a viver em estado e pânico .
Eram tempos difíceis, com as pessoas acirradas e revoltadas, desorientaads, procurando
arranjar fantasmas e bodes expiatórios pela pobreza e pela ignorância, de tantos anos de
dificuldade extremas .
A minha Mãe não resistiu,
e partiu, na flor da idade .
Ainda hoje vivo amargurado por ter tido a Revolução responsável, em parte, pelo desa-
parecimento da pessoa que mais amava neste mundo,
e também pelo facto de nunca a ter conseguido compensá-la minimamente pelos sacrifí-
cios que por mim fez, durante toda a sua existência .
Ainda a levei a passear algumas vezes a passear, uma ou outra vez, à Serra, à Floresta,
às Sete Fontes, e à ribeira de Unhais .
Lembro-me de Ela e o Pedro terem ido molhar os pés, na água fria da Ribeira .
É talvez, uma das últimas imagens da minha Mãe .
.
foi a minha MÃE que ma deu .
É muito difícil evocar a minha Mãe, a Maria Olinda,
como o meu Pai, carinhosamente, a tratava .
Eu sempre a tratei por
Mãezinha .
Ela sim, é que teve uma vida difícil, complicada, dividida
com mil cuidados, entre os cinco filhos que criou, e o ca-
rinho do meu Pai .
Vivia-se naquela época com enorme austeridade .
Esquecida pelos meus avós paternos, que nunca aceitaram
casamento, por questões de natureza religiosas .
Casou muito nova, com os filhos a sucederem-se, uns a se-
guir aos outros, sem ser tempo de intervalar um pouco,
Tenho uma recordação pouco nítida dessa altura, com os ir-
mãos muito pequenos, e com as deslocações que os meus
Pais faziam, por razões de emprego do meu Pai, e que às ve-
zes a acompanhava .
Vivia deste modo, um pouco ao Deus
dará,
sempre enquadrado pela família mais chegada .
Sempre me senti um pouco abandonado,
e fui desmamado muito cedo, que outro irmão já estava à
espera .
Mais tarde, tudo se viria a complicar muito mais, com a gi-
nástica que os meus Pais faziam para encontrar colocação
escolar, para cinco filhos, que deambulavam de escola, pa-
ra escola e de terra, para terra, como se se tratasse de uma
gincana vital .
Só muito mais tarde tomei verdadeira consciência das difi-
culdades e das provações por que a minha Mãe (e o meu
Pai, claro), foram passando, todos esses anos .
Entre gravidezes e partos, e toda uma série e deslocações, a
ajudar a grandes problemas económicos, não foi nada fácil a
vida da minha querida Mãe .
O roteiro das andanças da minha família começava em Seia,
a terra de toda a tribo, e passava por Lisbos, várias vezes, pelo
Tortosendo, Covilhã, Castelo Branco, Guarda, e mais outra
vez, Lisboa .
Andávamos sempre com a casa às costas, como os caracóis .
A mudança de habitação era uma autêntica operação mili-
tar . Uma das minhas missões, era desaparafusar e voltar a
aparafusar os parafusos das camas em que dormíamos, já
gastos com o uso .
Quem tem filhos, tem cadilhos,
quem os não, cadilhos tem .
Cada filho é sempre único .
Todos são filhos únicos, mas o último a nascer, é mais único
do que os outros . E esse é o rei durante um certo tempo, e re-
cebe as suas benesses .
Logo, logo, vinha outro, que depressa se tinha que fazer à vida .
O meu Pai tirou a 4ª. classe, e aos dez anos começou a trabal-
har, no escritório do advogado Dr. Calixto Pires, uma pessoa
de grande categoria e prestígio, que desde logo o adoptou para
seu ajudante .
Mais tarde, ele e esposa, a Dona Noémia, viriam a ser os padri-
nhos de casamento dos meus Pais .
A minha Mãe ( ainda me lembro de a ouvir cantar no côro da
Igreja de Seia), era a primeira solista, com uma voz maravilho-
sa, diziam as pessoas da família e os amigos mais chegados, que
só a Amália Rodrigues cantava melhor .
Cantava todo o tipo de música portuguesa e as mais conhecidas
da música internacional, mas a sua grande paixão era o Fado .
.
Quase toda a minha família, quer do lado do meu Pai, quer do
lado da minha Mãe, tinha vocação para a música
O meu Avô paterno, José Alves Garcia, era exímio a tocar a con-
certina, o antepassado do acordeão .
O meu Pai, aos dez anos, era o primeiro clarineta na Banda de
Seia .
Os meus tios e tias, elas cantavam quase todas, e eram muitas,
na Igreja . Eles distribuia-se pelos mais varidados instrumentos ,
sobretudo os de sopro . Lembro-me do meu tio António, que to-
cava trombone .
O meu Pai era o homem dos sete
instrumentos .
Na altura, havia a moda chamados conjuntos de Jazz, que abril-
hantavam as festas na Vila e por todo o Concelho de Seia .
O meu Pai, tanto quanto eu me lembro, dedicou-se de seguida ao
saxofone, num dos grupos com maior sucesso desse tempo, que se
designava o ROMPE E RASGA , uma verdadeira preciosidade,
um nome tirado do futuro, bem à maneira à maneira dos moder-
nos Grupos de Rock .
Não me recordo muito bem como surgiram láem casa os instru-
mentos de corda . Lembro-me de durante as minha escavações na
loja do meu Avô, que tudo albergava e onde eu passava longas es-
tadias de pesquisa, onde descobria coisas espantosas, ter encontra-
do um banjo, uma viola e um bandolim .
Portanto é porque era normal que alguém os tocasse .
* Mas deve ter sido em Lisboa, quando o meu Pai trabalhava num
armazém de lanifícios, na Rua Bernardim Ribeiro, onde vivia
comoutros hóspedes, que começou a tocar guitarra, acompanhando
alguns cantores, entre os quais, o nosso grande amigo, o senhor
Francisco Silva, dono de uma voz espantosa e que cantava Ópera
no São Carlos, como amador .
Seriam dessa altura, as grandes farras e cantorias, onde o Pai Plá-
cido, desenvolveu a técnica de tocar viola, e depois guitarra, a qual
viria a ter um lugar importante na nossa vida .
O meu chegou a ter lições com os melhores guitarristas de Fado,
de Lisboa, e começou a frequentar as várias casas de, e, por vezes,
a tocar com outros guitarristas, melhorando a sua perfomance ,
experiência que iria ser importante mais tarde .
.
Tinha terminado a nossa longa e difícil vida de transumância, pelo
menos para os meus Pais .
Havíamos um dia partido de Seia , passámos 2 ou 3 vezes por Lis-
boa, e, quando o meu Pai se fixou no Tortosendo, ´para trabalhar
na fábrica de lanifícios dos Pontífices, aí poisámos um ano.
Depois experimentámos um ano um ano em Castelo Branco, estabe-
lecemo-nos na Covilhã, após termos vivido em 4 casas no Tortosendo .
Com a construção da nossa casa naquela aldeia vermelha, lá aterrá-
mos de vez .
Muito confuso, não é ?.
Agora tentem só uma aproximação à realidade, para terem uma ideia
do esforço feito por todos nós, e, em especial, pela minha Mãe .
Tortosendo
era o que agora chamaríamos um study case, com cerca de 20 fábricas,
apitando, desalmadamente vezes sem conta, de manhã até à tardinha,
pontuando ferozmente os turnos do trabalho fabril .
Tinhamos agora uma casa nossa, novinha em
folha, com quintal e tudo,
muitos cães, abelhas, garagem, um enorme jar-
dim, um poço e até uma adega .
Tudo à maneira,
pena foi que o sonho tão esforçadamente erguido, tenha demorado tão
pouco tempo a gozar ...
Entretanto, a música e o canto tinham feito o seu caminho .
Quase todos os dias havia ensaio dos Fados e Guitarradas .
O ensino do solfejo e dos instrumentos há muito que se processava, com
a minha Mãe a cantar os fados que o meu Pai mais gostava, acompanha-
dos por dois dos meus irmãos .
Até a minha Mãe aprendeu a tocar viola .
Foi a melhor fase da nossa vida .
.
Havia agora espaço para deixar colocar as peças do jogo da vida, sem ter
que andar sempre a andar a trocá-las física e emocionalmente, com medo
de nova mexida .
A criação de um grupo de fados e guitarradas
um conjunto musical, de que o meu Pai era o chefe da orquestra, tocando
Guitarra portuguesa e Acordeão, a minha Mão era a Solista principal e os
meusmãos, os guitarristas residentes .
Havia depois os elementos permanentes, que se tocavam em nossa casa, per-
mutando, por vezes, nas casas de uns, e do outros, trocando experiências,
e exibindo as suas habilidades .
Por vezes tocavam em certos lugares públicos, mas em ambientes familiares,
como era o caso do Ginásio da Covilhã .
Foi uma época mais sossegada, liberta de grandes problemas, e com os filhos já
crescidos, que a música veio a ter um papel central na nossa vida .
Digo nossa, impropriamente, pois que eu ficara libertado dessas ocupações mu-
sicais . Nunca tive propensão para o estudo das notas (musicais),mas gostava de
tocar acordeão, de um modo instintivo . Tocava de olhos fechados como o galo,
mas só com a mão esquerda .
Foi então que, inopinadamente o meu Pai me informou que eu ia estudar para a
escola da noite, para tirar o curso de Debuxador, uma espécie de Técnico têx-
til, Foi um grande choque, em todas as vertentes, mas duas tornaram-se vitais
para mim :
á não tinha que estudar música,
e passei a ter uma vida própria, que quase só
dependia de mim .
Contudo, as coisas ficaram muito baralhadas na minha cabeça .
De repente, deixei de ser adolescente,
e entrei no mundo dos adultos .
Mais uma vez, senti que a minha Mãe ia ficar mais longe de mim .
Preparava-me o pequeno almoço bastante cedo, e eu lá ia para o
Colégio Moderno, a subir a Calçada Alta .
Servia-me o jantar, que eu devorava à pressa e logo partia para a
Noite, para estudar à a noite .
Quando regressava, já toda a gente dormia,
mas a minha Mãe deixava-me sempre uma caneca com leite ou
com chá, para eu tomar , antes de me ir deitar .
Via-a tempo, mas ao menos eu sabia que ela estava lá, sempre co-
migo, para o que desse e viesse .
.
Tinha começado a minha fase de esquizofrenia .
De dia, rapaz,
homem, depois do jantar .
Sempre fui o filho mais chegado à minha Mãe .
Havia coisas que nos ligavam fortemente .
Não me lembro de alguma vez ter ralhado ou discutido com ela .
Havia sempre uma maneira de resolver os problemas, nem que fosse pelo
silêncio . Eram-mos duas pessoas muito reservadas e contidas, com dificul-
dade exprimir o que sentíamos .
Depois havia a partilha da ansiedade, sempre presente em tudo .
Era o único dos meus irmãos que largava a brincadeira, para fazer compan-
hia à minha Mãe, nas longas e sofridas horas de espera até que o meu Pai
chegasse a casa .
Era uma agonia, sobretudo quando ele ia para longe para a caça, ou quando
atravessava a Serra, cortando a tempestade, sempre em grande velocidade .
Uma vez fomos passar o Fim de Ano, a casa dos compadres dos meus Pais,
em Vila Franca das Naves, perto de Trancoso, (a terra do Bandarra) .
Regressámos tarde, em dois carros, que a meio do caminho se desencontra-
ram . O meu Pai guiou acelerou mais um pouco, e de repente ouvimos o car-
ro a arrastar pela estrada, completamente desequilibrado, e faiscando ao su-
bir a estrada, e numa curva . .
Tinha saltado uma das rodas traseiras, e andámos horas a encontrá-la .
Foi preciso tirar uma porca a cada roda, para podermos seguir até Seia , com
gandes cautelas, em 4 rodas .
Um amigo nosso, mecânico, ajudou-nos a resolver o problema, e chegámos ao
Tortosendo, já quase de dia .
O grande sonho da minha Mãe, era ser professora, sonho que nunca viria a
realizar, dadas as circunstâncias da vida .
Não foi professora oficial, mas foi ela que ensinou quase tudo, aos cinco fil-
hos . Sob a orientação e a mão firme do meu Pai, tudo fez, tudo ensinou, pa-
cientemente, desde o mamar, comer, vestir, comportar-se, o tomar banho, as
pri-meiras letras e as primeiras contas .
Arrumava a casa, fazia a comida, costurava pequenos arranjos. preparava a
comida para os cães, que eram quase família .
Não tinha tempo sequer, para descansar um pouco .
Desvelava-se a tratar das doenças, quase sempre havia um dos filhos a neces-
sitar de cuidados, levava-nos ao Dr. Melo, uma espécie de João Semana moder-
do, que nos atendia a todos com grande cuidado .
Os honorários eram pagos com as melhores peças de caça que o meu Pai tra-
zia para casa .
Como já escrevi anteriormente, foi no Tortosendo (e um pouco antes
na Covilhã) que os meus pais ganharam algum alento .
A lida da casa era agora mais fácil .
Mas a saúde ia minguando em, sentido contrário .
Lembro-me de, quando a minha Mãe ia à praça ou ao talho comigo,
ficava sempre por ali perto (aliás, na terra era tudo muito perto) e fica-
va à coca, à espera, para lhe trazer o saco das compras, durante a com-
prida e empinada rua até nossa casa .
O trabalho com os cães era pesado .
Os cães(e as espingardas) eram os instrumentos de trabalho indispensá-
veis para a procura de alimento para todos nós .
Numa primeira fase da nossa vida, diríamos que a caça e a pesca, eram
parte significativa da dieta familiar .
Mais tarde, o meu Pai, era um dos melhores caçadores do país, e tirava
proveito da sua habilidade, para percorrer a zona centro de Portugal,
para entrar nos torneios de Tiro aos Pratos, tendo ganho centenas de tro-
féus .
O problema de caçar muito e bem ( o meu Pai só caçava animais de penas,
pois os coelhos tinha sido dizimados e doentes com uma doença, chamada
Mixomatose, ainda não totalmente recuperada)
era a que a quantidade de bichos que tinha que ser limpa e depenada, e
isso era uma tarefa imensa, que em regra, calhava à minha Mãe .
Ás vezes, a mortandade calhava em tempo de férias, e então era ver a fa-
mília reunida em grupos, no concurso para ver quem depenava melhor e
mais depressa .
Depois, ao serão,
regressava em forte, a música,
até alta madrugada .
.
Um Anjo que desceu à Terra .
Desde nova muito nova, que a minha Mãe começou a cantar na Igreja, como solis-
ta do Côro da Igreja .
Talvez que esse facto tivesse contribuído para cimentar a união matrimonial .
Devia portanto nas festas e nos arraiais, e nos passeios à Serra, como por exemplo,
durante os magustos e almoçaradas na Senhora do Espinheiro, onde mais tarde ain-
da participei algumas vezes .
Não havia carros, e tudo era carregado serra acima, em alegre algazarra .
Passava-se o dia, comendo e bebendo, e a festa acabava por desembocar nas canti-
gar, até ao pôr do Sol .
Na igreja, até os não crentes entravam para ouvir cantar a minha Mãe, ao lado das
outras senhoras, entre elas várias das minhas tias .
Mais tarde, quando a vida se ajeitou um pouco,
já na Covilhã, o meu Pai começou a ensinar um pouco de técnica de canto r demúsica,
de modo a realçar, ainda mais a voz de Anjo, com que a minha Mãe fora dotada ,
Foi então, que os fados e guitarradas se guinaram a uma altura ímpar, nos saraus fami-
liares e e de grupos de amigos .
A minha ouvia as musicas, escolhia as letras,e o meu Pai arranjava as músicas
e seleccionava os tons das cantigas . Uma parceria que iria durar para sem-
pre .
Cantava tudo o que era música portuguesa, desde o folclore, até às musicas co-
nhecidas internacionalmente, mas a sua grande paixão era o Fado .
A Escola da Noite .
Parece um convite à má vida. Antes fosse .
Já tinha ouvido falar nos debuxadores .
O meu Pai dizia-me que era uma profissão muito bem paga, e que devia ser uma
coisa boa para mim .
Já tinha feito alguns desenhos no Liceu da Covilhã . Tinha feito o busto do Almei-
da Garret, para a festa de homenagem do grande escritor .
As pessoas gostaram .
Foi quando me mandou tirar o curso, na Escola Comercial e Industrial da Covilhã,
a Escola Melo e Castro .
Não foi difícil adaptar-me aos novos estudos, que não à vida de quase escravo, que
passei a ter .
Fiz alguns amigos, e, rapidamente me transformei no melhor aluno do Curso .
Eu era um menino, no meio dos adultos .
O ensino era muito técnico, mas para mim , muito fácil de apreender .
Tinham-me dado equivalência ao Ciclo Preparatório, de modo que entrei logo nas cadeiras
profissionais, num curso de 5 anos, que acumulava com o ensino do Liceu .
O CURSO DE MALANDRO .
Já tinha frequentado muitas das matérias que fazem um malandro,
com uma boa aprendizagem absorvida nas várias escolas primárias que havia frequentado .
Formei-me nessas matérias, no Colégio Moderno da Covilhã, que tinha uma merecida reputação .
Acabei por ser Doutorado na escola da noite .
A Vida, fez-me Catedrático em em Ciências da malandragem .
Transformei-me em malandro, cigano e vadio,
e tenho vindo a reciclar-me pela vida fora .
.
Com a minha vida à noite, algumas coisas melhoraram.
Deixei de ter que passear os cães, que me tinham arranjado uma série de pro-
blemas, tinha sido levado à Esquadra, porque um dos cães atirava-se às pessoas,
carteiros, fardas e mendigos .
O animal, depois de muitas peripécias, acabou por ser abatido no canil .
Acabou-se o tormento de aprender solfejo, o meu Pai não me deixava tocar acor-
deã, tinha que tocar às escondidas .
E deixei de ter que dar satisfações sobre o que fazia ou não, durante as horas do
meu longo dia .
Ganhei a chave de casa aos meus 14 anos, por uma razão picaresca .
Logo nos primeiros dias da Escola, tinha chegado tarde a casa, já toda a gente
dormia, e eu comecei a escalar o meu quarto, quando fui agarrado pelas pernas
por um guarda, e tive que fazer valer os meus direitos:
Ó senhor guarda, essa casa é minha,
s.f.f., toque lá a campaínha, para a minha Mãe me abrir a porta .
Foi remédio santo .
No dia seguinte, o meu Pai entregou-me a chave da casa .
Os serões musicais .
Os ensaios das cantorias e os concertos iam-se sucedendo na minha ausência,
em regra aos fins de semana .
Depois de tirada a mesa e arrumada a cozinha, ia-se compondo o cenário .
Sacavam-se os instrumentos e compunha-se a sala .
Apareciam os tocadores habituais :
O Torres Pereira, na guitarra, o lança na viola, e os meus dois irmãos tocadores .
Vinha o fadista Marchão, e aparecia sempre mais um ou dois comparsas, para
compôr o ramalhete .
O meu Pai passava da guitarra, para o acordeão,
Mas a minha Mãe era a Raínha da Festa .
Fados e guitarradas, de ouvir e chorar por mais .
Se eu gostava de a ouvir cantar .
Às vezes, quando a minha Mãe cantava nos agudos, eu ficava aflito, com o medo
de poder falha alguma nota .
Mas nunca aconteceu .
A minha Mãe ia cantando noite fora, até que o esforço despendido a vencesse .
Uma vez, pela Páscoa, em casa da minha avó, mãe da minha mãe, depois de ter
passado o Jesus beijado,
estava lançada a parte musical, juntavam-se mais ouvintes e participantes .
E o meu Pai dizia,
Maria Olinda,
canta aquela de que tu gostas tanto .
Começava com chave de oiro .
Uma vez. lá em Seia, o meu primo Zé Manel armou a aparelhagem e começou a gravar o espectáculo, com locução e tudo .
A cassete com a música da-minha Mãe, andou por aí às cambalhotas, mas ainda hoje reli-
giosamente uma cópia .
A minha Mãe foi um anjo
que desceu à terra para cantar .
.
O que mais me prende à vida
Não é o amor de ninguém
É que a morte de esquecida
Deixa o mal e leva o bem
Quando finalmente a minha Mãe começou a ter algum sossego, eis que a vida lhe viria a
pregar um enorme partida .
Os filhos estavam todos orientados nos seus estudos ou nas suas profissões, com a minha
Mãe gozando um merecido descanso e alguma melhoria de vida, eis que surge, como uma grande perturbação, o 25 de Abril, abençoado por quase todos, maldito para alguns, muito
poucos .
O Tortosendo era conhecido como a aldeia vermelha, com uma grande predominãncia de
adeptos do PCP .
Não sei ao certo o que se teria passado naqueles dias conturbados, mas correram boatos
reles contra o meu Pai .
Sei que a minha Mãe, já com a saúde muito abalada, passou a viver em estado e pânico .
Eram tempos difíceis, com as pessoas acirradas e revoltadas, desorientaads, procurando
arranjar fantasmas e bodes expiatórios pela pobreza e pela ignorância, de tantos anos de
dificuldade extremas .
A minha Mãe não resistiu,
e partiu, na flor da idade .
Ainda hoje vivo amargurado por ter tido a Revolução responsável, em parte, pelo desa-
parecimento da pessoa que mais amava neste mundo,
e também pelo facto de nunca a ter conseguido compensá-la minimamente pelos sacrifí-
cios que por mim fez, durante toda a sua existência .
Ainda a levei a passear algumas vezes a passear, uma ou outra vez, à Serra, à Floresta,
às Sete Fontes, e à ribeira de Unhais .
Lembro-me de Ela e o Pedro terem ido molhar os pés, na água fria da Ribeira .
É talvez, uma das últimas imagens da minha Mãe .
.
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