quarta-feira, 12 de abril de 2017

A CRISE DOS SATIAGRAIS - 1954 .

Andava eu na brincadeira, junto à Estação de caminho de ferro,
bairro da Covilhã, para onde recentemente me havia mudado,
quando começei a ouvir um tropel mais ou menos organizado,
quando me disseram que eram os nossos soldados que partiam
para a guerra, para ir defender os nossos territórios indianos,
de Goa, Damão e Diu, mais uns pequenos enclaves portugueses, 
mas encarcerados em terra indiana - Dradá e Nagar-Aveli.

Já ouvira falar dessa coisa na escola, mas julgava tratar-se de 
uma daquelas brincadeiras de índios e cowboys,  a que eu joga-
va em 
puto . 

Mas era verdade, até vinha a comandar o Capitão Lino, meu vi-
zinho no bairro .
Via o senhor partir todos os dias para o trabalho, mas nunca me 
tinha passado pela cabeça que o senhor era da tropa .

Apanharam o combóio, e seguiram para um destes ajuntamentos 
de mais soldados, para depois apanharem o vapor, ruma a Goa, um
dos últimos entrepostos que Nehru ainda tinha deixado a Portugal .

As nossas relações, boas e amigáveis, durante séculos, tinha come-
çado a azedar com a independência da União Indiana, dado o orgu-
lho ferido de Nehru, um dos chefes mais conceituados do Movimen-
to dos Países não alinhados .

Conta-se até um episódio trágico-cómico, passado com o actor Iger-
jas Caeiro, que fazia na rádio, um célebre programa de variedades
chamado "O Passeio das Seis e Meia " .
Participavam os actores Igrejas Caeiro, Elvira Velez-, o Zèquinha e
a Lelé, e Elvira Velez,  que fazia de sogra, aquela santa .
Incluía um concurso de perguntas, e sem se saber como e porquê,
ao concorrente foi perguntado qual o maior estadista mundial .

O entrevistado respondeu :
Salazar .

A pergunta era Nehru .

Grande bronca no programa, que acabou logo ali .
Foi retirado imediatamente da grelha da então Emissora Nacional,
e os três artistas, figuras cimeiras do Teatro Nacional, foram banidas
para sempre, impedidas de actuar em Portugal .

Ainda hoje me pergunto, qual a razão mais profunda, de uma atitude
tão quixotesca e despropositada, ainda por cima num momento tão di-
fícil que viria a chocar grande parte dos portugueses .


terça-feira, 11 de abril de 2017

A NOSSA GUERRA DELES .

Partiam de madrugada, ainda noite cerrada, a caminho não se sabe 
de quê e para quê, orientados apenas pelo instinto .
Alguns, talvez não regressassem .
No início, não havia qualquer serviço de informações, por mais ru-
dimentar que fosse, não existiam mapas de cobertura do território,
nem fotomapas, nem apoio aéreo, nem pelotão de reconhecimento
Os PelRec, cujos os soldados seriam sempre os primeiros a abater .

O os colonos, onde andavam .

Muitas vezes, andavam aos círculos, perdendo-se nas falsas referên-
cias, nas pistas falsas, outra vezes eram travados por uma ratoeira 
aberta na picada, por uma árvore derrubada, por uma morteirada
atirada ao acaso para cima da patrulha .

Tudo servia para imobilizar o dispositivo, para confundir e baralhar
os incautos soldados, apanhados num turbilhão mortífero .

E onde estavam os africanistas .

A gente leal a Salazar .

Era muito difícil fazer uma guerra nestas condições .

A tropa não estava preparada nem física, nem psíquica, nem estraté-
gicamente para combate tão desigual .
Se havia feridos ou mortos, havia o apoio de um enfermeiro ou um ma-
queiro, e tudo parava à espera de apoio vindo de Luanda ou de uma ba-
se logística que dispusesse de helis, para transportar as vítimas para o 
hospital ou para o cemitério .

E tudo recomeçava do ponto zero  .

E os futuros retornados, estavam a comer chá 
e torradas, a caminho das aulas ou dos escritó-
rios .

A guerra não era deles, nem para eles .

Os turras, como eram chamados os guerrilheiros que lutavam pela inde-
pendência da sua terra, estavam mais bem armados e equipados que os
nossos zonzos militares, militares à força .

Os nossos era um exército de sombras, de fantasmas, gente que não fazia
a mínima ideia do que se estava a passar .

Os angolanos de raça,

Como não tinham os seus parentes e amigos envolvidos nesta matança, 
nem sequer se dignavam socorrer os feridos, nem enterrar os mortos  de 
uma guerra, a que de facto pareciam completamente   alheios .
.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

A natureza da guerra .

Os primeiros soldados a ir para a guerra colonial ainda iam
de capacete metálico, bota cardada e agarrados às obsoletas
mausers, resquícios da Iª. Guerra Mundial, onde tínhamos 
combatido há mais de meio século .

Era uma guerra feita com a tropa enterrada no chão, pesada,
molhada, escondida nos buracos e nas trincheiras, com a chu-
va a cobrir aqueles milhões de desgraçados, à fome e ao frio e 
ao alcance de um qualquer tiro perdido, estropiados, gaseados,
em mais uma guerra sem sentido . 

Os nossos generais levaram décadas a entender que esse tipo de
guerra já não se usava, tinham saudades da guerra de posições,
uma guerra de defensiva, gerida por tiros de artilharia pesada,
feita por pequenos avanços e recuos no terreno, uma guerra fixa,
feita para fazer rarear a carne para canhão .

Nada entenderam da guerra blitz, que os nazis levaram a cabo 
em todo o Continente europeu e pelo mundo inteiro, usando a 
rapidez de deslocação, num movimento rápido entontecedor, não
deixando oferecer qualquer defesa ou capacidade de resposta, tal
como viria a acontecera com a França, nas guerras da Indochina .

Os nossos soldados, nada aprenderam com os ousados generais 
de opereta, nem ao menos um pouco de história e de geografia .

Chegado a África, moviam-se como baratas tontas, espezinhados 
como formigas, sem qualquer objectivo, e sem qualquer rumo .

Foram trágicos, os primeiros tempos dessa guerra maluca .
.




.

domingo, 9 de abril de 2017

LE DESERTEUR (Boris Vian )

Monsieur le Président
Je vous fait une lettre
Que vous lirez peut-être
Si vous avez du temps

Je viens de recevoir
Mas papiers militaitres
Pour partir pour la guerre
Avant mecredi soir

Monsieur le Président
Je ne veux la faire
Je ne suis pas sur terre
pour tuer des pauvres gens

C/est par pour vous facher
Il faut que je vous dise
Ma décision est prise
Je m/en vais deserter 


Depuis que je suis né
J/ai vu mourir mon père
J/ai vu partir mom frère
Et pleurer mes enfants

Ma mère a tant souffert
Elle est dans sa tombe
Et se moque des bombes
Et se moque des vers

Quand j/etais prisioner
On m/a volé ma femme
On m/a volé mon âme
Et tout mon cher passé

Demain de bon matin
Je fermerai ma port
Au nez des années mortes
J/irai sur les chemins

Je mendirait ma vie
Sur les routes de France
De Bretagne en Provence
Et je dirais aux gens

Refusez d/obeir
Refusez de la faire
N/allez pas a la guerre
Refusez  de partir

S/il faut donner son sang
Aller donner le vôtre
Vous être bon apôtre
Monsieur le Président

Si vous mi porsuivez
Prévenez vos gendarmes
Aue je n/aurrai pas d/armes
Et q/ils purront tirez 
.




sábado, 8 de abril de 2017

O MELTING POINT .

Que força é essa, que força é essa
Que trazes contigo
Que te põe de bem com os outros
E de mal contigo

Sérgio Godinho


Como é que um País tão pequeno e com tão pouca gente,
e por mais de uma vez na sua História, cometer actos de 
tanta bravura e de tanta grandeza, muito acima das suas
possibilidades .

Que gente é esta, forjada no calor da luta e da sobrevivên-
cia, de que resultou uma raça estranha cheia de qualidades,
mas também com muitos defeitos .

Um autêntico Melting Point .

Uma selecção nacional, forjada ao longo de muitos séculos .

E mais do que isso,
espalhada pelos quatro cantos do Mundo .
disseminando os genes aperfeiçoados, no contacto com outras
terras e outras terras .

Um enorme milagre .

Desgraçadamente, não herdámos o gene que nos faz trabalhar 
e enriquecer na nossa própria terra .

Uma pequena mutação, faz com que estejamos habituados a jo-
eirar em terras estranhas, tendo à frente um capataz  .

Que diabo, também ninguém é perfeito ...
.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

O IMPÉRIO COLONIAL .

AS TEIAS QUE O IMPÉRIO TECE .

Voltas que o mundo dá .

Não deixa de ser curioso, que foi a gente da Iª. República, quem
acorreu à defesa do então Império Colonial Português, em Áfri-
ca e nas terras ensanguentadas da Flandres .

Cerca de cem mil soldados partiram para longe da Pátria, para 
evitar a perda dos territórios portugueses, aqém e além mar .

É uma epopeia trágica da nossa História silenciada, ontem, como
ainda hoje, como se nada se tivesse passado, no início do Sec. XX .

Incorporados à pressa, embarcados às escondidas, levados para o
pior cenário de guerra, nas trincheiras da Flandres, integrados no
sector inglês da Frente, traídos na Batalha de La Liz , esquarteja-
dos e gaseados, abandonadas à sua sorte, vieram a regressar aos pe-
daços, apesar de terem ajudado os aliados a derrotar os exércitos 
teutónicos . 

Mas a luta em defesa do Império, travou-se também em àfrica, tra-
vando a gula e a cobiça dos germânicos nas fronteiras com o Sudo-
este Africano, onde anteriormente tinha tido lugar um ensaio de Ho-
locausto contra os povos da actual Namíbia, 
bem com  na  defesa da manutançãodas nossas possessões em Mo-
çambique, de modo a manter os ingleses, bem longe das fronteiras 
portuguesas .

Começa hoje a levantar-se o véu sobre uma época da nossa História,
que a maior parte da população desconhece, e de que outra parte tem 
vergonha .
.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

NO REGRESSO VINHAM TODOS .

O NOSSO CAMARADA VASCO .

Colega e amigo no Liceu de Castelo Branco,
quem havia de dizer que o pacholento Vasco, viria a ser
um herói de Abril, membro destacado do MFA .

Viria a voltar a conviver com ele, juntamente com outros ami-
gos albicastrenses, na Pastelaria Mexicana .

" No regresso, vinham todos"

é um pequeno livro, contado na 1ª. pessoa, que evoca as aven~
turas da guerra de África .

Preparar pobres mancebos, em meia dúzia de semanas, 
era uma tarefa quase impossível .

O inimigo era calejado e astuto . Conhecia o terreno, os usos e
costumes da região, a fauna e a flora, os cheiros e os ruídos da
selva .

Os recrutas eram embarcados à pressa, enviados de barco para
Luanda, aguardavam o baptismo de guerra, no Norte de Angola .

Eram os 

maçaricos,

nada percebiam do que se passava em seu redor .

Nas primeiras patrulhas em que participavam, havia sempre bai-
xas do nosso lado .

Levavam meses a aprender a brincarao jogo 
da morte .

Muitos caíam na picada, ceifados pelas minas anti-pessoal .
O comandante de pelotão, por norma um jovem oficial miliciano,
cedo aprendeu a usar um uniforme descaracterizado, passando a 
ficar disseminado no meio do grupo, eviatndo, desse modo, ser o al-
vo preferencial dos guerrilheiros .

Quando o chefe era abatido, estabelecia-se o caos entre a tropa .

Aprendeu-se a evitar o meio do caminho e a pisar o terreno, com
todo o cuidado, nas bermas do atalho .

A ver, sem ser visto,
a ouvir, sem ser ouvido .

A evitarem a deslocar-se em molhada, mas mantendo uma distân-
cia de segurança entre todos .

É claro que estas regras não evitavam os ataques aleatórios .

Aleatórios eram também os lugares que os soldados tinham na 
bicha de pirilau 

uns um sorteados ao acaso, outros ocupados por voluntários,
que seleccionavam o seu lugar na sorte, naquele dia, naquela ma-
rcha .

Só que, por vezes, a sorte era-lhe muito 
tragicamente madrasta . 
.


terça-feira, 4 de abril de 2017

O MOVIMENTO NACIONAL FEMININO .

Era uma mistura de dança do ventre, com uma simulação
do  acto sexual .
Exercício desenvolvido pela chefe do MN Feminino, que 
dava pelo nome de Cecília Supico Pinto, 
Cilinha para os mais chegados .

Contava-se que, nos seus tempos áureos, essa senhora era
capaz de conviver com um pelotão inteiro .

O movimento era constituído por um grupo de respeitáveis
senhoras, provenientes da melhor sociedade portuguesa, pos-
tas ao serviço da Pátria .

Iam amiúde visitar os mocetões que estavam internados nos 
hospitais militares, proporcionavam-lhes carinho e conforto,
levavam-lhe maços de tabaco, aerogramas e qualquer coisita
para roer . 
Mas o mais importante de tudo, era o calor humano, tão neces-
sário em momentos tão difíceis, e distribuído com grande espí-
rito de missão .
.

ADEUS, até ao meu regresso .

 Sou da 1ª. incorporação de 1968 .

Vivi  um bocado a guerra, por dentro por fora, embora nunca 
tenha sido sido um combatente . Mas a guerra não é só andar 
aos tiros, matar e morrer . É também a angústia da espera, o
pavor da incerteza, a dúvida de quem será o primeiro a cair 
ou a safar-se, e se ainda continuamos vivos .

Longe de tudo e de todos, sem os meios tecnológicos de infor-
mação, era sobretudo o primado da ausência, o sentimento de
de morrer um bocadinho todos os dias .

Pelo Natal, juntavam-se magotes de mancebos, á espera de man-
dar uma mensagem para os seus familiares e amigos :

Adeus, até ao meu regresso .

Tudo muito à pressa, para caberem mais no boneco .
E lá  iam desfilando os rostos cansados, com olheiras, que vigi-
lância era apertada, a noite era longa e mal dormida, sempre à 
espera de uma morteirada .

Sorrisos amarelos, de quem ri, com vontade de chorar .

Adeus, até ao meu regresso .

Como paliativos,
existiam os aerogramas, telegramas enviadas por avião, 

e o truque das madrinha de guerra, que prometiam juras de amo-
res impossíveis, com o retrato pendurado no fundo do cacifo, ou 
na parede nua do aquartelamento .

Quantos sonhos inventados pela imaginação dos soldados carentes 
de afecto, que eram a única companhia de tantas almas solitárias .

Em que a amante era a G3 que nunca os abandonava, nos bons e
nos maus momentos .

Adeus, até ao meu regresso .

:



segunda-feira, 3 de abril de 2017

O ISOLAMENTO DE PORTUGAL .

Deus, Pátria, Família .

De modo nenhum, Portugal estava minimamente 
preparado para aventuras guerreiras . Sofria ameaças 
veladas de todos os azimutes .

Orgulhosamente sós,

era o lema patrioteiro do infame ditador .

De  Atlântico, aos Urais,

era outra patranha do velho .

Era o tempo da eclosão das guerras de libertação nacional,
na sequência do final da IIª. Guerra Mundial, em que muitos 
povos se dispuseram a lutar ao lado das potências democrá-
ticas, contra o Nazismo, guerra que se estendeu a todos os 
continentes, e a quase todos os países do mundo .

Era ainda o reconhecimento a esses povos, e uma maneira de 
os manter em paz o redil ocidental .

Houve muita gente que não quis integrar o papel das democracias,
por idiotice, por falta de visão, e pelo desejo de manter privilégios
que já não se coadunavam com os novos ventos da História .

Foi também um lampejo do tempo do Conde de Lampedusa, que 
alterou o curso do mundo :

Temos que mudar alguma coisa,
se queremos que tudo fique na mesma . 

Assim pensava o nhurro de Santa Comba .

A criação da Commonwealth, inventada pelos britânicos, foi uma paró-
dia do mesmo calibre, mas em bom, uma misturada de paises, com o in-
glês como língua comum, mas com a Rainha de Inglaterra a ser soberan
de meio mundo .

Era a repetição do antigo sonho da Raínha Vitória, mas agora com a su-
blime astúcia de casar e descasar, a seu belo prazer, os valetes e as damas
do ramo da família dos Windsor .

Um regabofe . 

Como resposta a esta marmelada,

foi criada na 

Conferência de Bandung,

O conceito de 3º Mundo,

clube que incluía  o Egipto de Nasser, Tito da Jugoslávia, a Índia de Nerhu, 
a Indonésia, e que viria a incluir quase uma centena de países .

Portugal continuava 
orgulhosamente só .
.



NEM BOM VENTO, NEM BOM CASAMENTO .

Um País em fuga .

Não me lembro já muito bem se foi a guerra que começou 
primeiro, se foi ela que precipitou a fuga em massa para
França e Aragança . 
Os dois fenómenos decorriam de par em par .

Portugal, país pobre e atrasado, em todos os aspectos, vivia
encarcerado entre o mar e a raia espanhola .

Os pobres mancebos, muitos dos quais nunca tinham lobri-
gado o mar, viviam no campo, numa agricultura de subsistên-
cia, aproveitando a terra pobre herdada pelos ancestrais ,
trabalhado de sol a sol, para prover ao sustento das das gen-
tes .
.

Salazar tinha instituído o prémio para a família mais numerosa
de Portugal . Sempre eram mais bocas para atacar a terra com
sacho e ancinho .

Talvez que tenha sido a fome, o rastilho para desencadear a fu-
ga desenfreada e à pressa, de muitos milhares de almas, grande
parte a salto de lapin, correndo enormes riscos e esgotando os
fracos proventos amealhados para uma viagem sem retorno à 
vista .

A guerra colonial viria acelerar o processo de abandono do país,
cada vez aceleradamente, à medida que os combates se estendiam
pelo capim e pela selva africana .

Saíam barcos carregados de homens, a caminho de Angola, Mo
çambique e Guiné Bissau .

Muitos não sabiam ler, nem escrever, e não entendiam por que
razão os arrancavam da terra natal, para ser obrigados a comba-
ter numa numa guerra, que nem sequer sabia com quem e por-
que lutavam .

Foi talvez a maior sangria levada a cabo pelos mordomos de Sa-
lazar e seus esbirros .

Iríamos atravessar décadas de fome, de miséria e morte, que nun-
ca mais poderíamos colmatar .

domingo, 2 de abril de 2017

AS ACÁCIAS E OS EMBONDEIROS .

O AROMA DO CAFÉ .

A primeira fase da guerra,
foi o levantamento dos cadáveres dos colonos e de suas famílias .

Para Angola já, e em força .

Depois a defesa das grandes fazendas do Norte, a criação de 
fortificações .
Só mais tarde se começou a organizar a defesa em profundi-
dade, criando aquartelamentos e fornecedo apoio aéreo .

Onde paravam então os grandes fazendeiros, os grandes capi-
talistas, os donos disto e daquilo tudo,  os capitães do café, dos
diamantes, do amendoím, da soja e do sisal .

A guerra foi-se instalando por toda a parte .

Onde andavam nessa altura os valentes colonos, 

tratavam da sua vidinha, dos seus negócios, tudo corria bem pa-
ra os habitantes das terras maiores .

Como era bom viver naqueles espaços a perder de vista, curtindo
os famosos safaris, indo às compras na África do Sul, o paraíso
sonhado pelas classes médias, ou ainda gozando as merecidas féri-
as pagas,  na longínqua metrópole .

A guerra era lá bem longe, na mata, no capim, nas picadas arma-
dilhadas, no matraquear das armas automáticas, no rebentar dos
morteiros, no explodir das minas assassinas .

Depois no silêncio imenso da espera, nos sons invisíveis e desconhe-
cidos da selva, nas noites de insónia em alerta mortal .

Angola é nossa, Angola é nossa .

Passou mais de um milhão de soldadinhos e chumbo por essas guer-
ras idiotas, devido à cupidez e à ganância, 

à ordem de um velho ranhoso e medricas, que nunca teve tomates 
para visitar as colónias portuguesa, pois tinha horror de viajar de
avião .

Onde estiveram, durante esses anos perdidos, atarefados na sua vida
pequenina e mesquinha, esses heróis africanos, combatentes de língua, 
que depois fugiram com o rabinho entre as pernas, quando a borrasca
lhes bateu à porta .
.

sábado, 1 de abril de 2017

O CERCO .

A doença silenciosa .

O cerco vai-se apertando à minha volta .
Vai-se insinuando lenta mas progressivamente, apanha os
pacientes sorrateiramente, insinua-se como se de nada se
tratasse .
Aos primeiros sinais, a princípio a gente faz de conta que 
só apanha os outros, como se isso não fosse nada com a 
gente . 
Julgamos que as coisas são fáceis de controlar .

Custa admitir uma verdade, mesmo que ela se meta pelos ol-
hos dentro . O maior cego é aquele que não quer ver .
Pelo caminho vamos lidando com meias palavras, falsas pro-
messas, paninhos quentes, uma miríade de argumentos que nos
vão alertando . Pomos água na fervura . Navegamos em águas 
turvas . 
Encaramos a doença com alguma altivez .

Vem isto a propósito da minha luta contra 
 os Diabetes,

uma luta complicada, sem inimigo à vista, e travada à traição .

Já há bastante tempo me diziam que era pré diabético, como se 
isso não fosse já uma declaração de guerra, o início de uma ba-
talha lenta, mas inexorável . Diziam-me para ter cuidado, para
seguir as regras, evitar o açúcar, a obesidade, fazer muito exer-
cício, beber muitos líquidos, mas eu começava um regime alimen-
tar,  aos poucos, ia baixando as defesas, e logo voltava quase ao 
de partida . Acabava muitas vezes por pisar os limites .

E depois voltava sempre ao princípio, ou quase sempre mais atrás .

É aí que tem que prevalecer a disciplina 
e a força de vontade .

E depois aparecem os falsos profetas, dando conselhos de truques 
de novas dietas, quantas vezes ao arrepio do caminho adequado .

Tantas vezes que me davam receitas, mèzinhas salvadoras, chás 
milagrosos ou um novo exercício físico .

E eu, na fé dos ignorantes, andava sempre a experimentar novos
esquemas, mas continuava a viver confuso e baralhado .

Até que resolvi encarar a doença mais a peito, 
e assumir, de uma vez por todas,

que sou diabético,

disposto a arcar com todas as responsabilidades que tal facto 
implica .

Para aviso a todos os diabéticos .




sexta-feira, 31 de março de 2017

MENINA DOS OLHOS TRISTES .

Menina dos olhos tristes
O que tanto a faz chorar
O soldadinho não volta
do outro lado do mar

Vamos senhor pensativo
Olhe o cachimbo a apagar
O soldadinho não volta 
Do outro lado do mar

Senhora de olhos cansados
Porque a fadiga o tear
O soldadinho não volta
Do outro lado do mar

Anda bem triste um amigo
Uma carta o faz chorar
O soldadinho não volta
Do outro lado do mar 

A lua que é viajante
É que nos pode informar
O soldadinho já volta
Está mesmo quase a chegar

Vem numa caixa de pinho
Do outro lado do mar
Desta vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar 

Zeca Afonso

Adriano Correia de Oliveira 
.



quarta-feira, 29 de março de 2017

OS ANOS DE CHUMBO .

Quando fui à inspecção militar, o meu quartel era o RAL 1 (mais
tarde rebaptizado RALIS), toda a gente ficava toda a gente apurada 
para todo o serviço, só se safavam  os cegos, os estropiados, ou ou 
que não acusavam nada na balança .

Era tudo aproveitado como carne para canhão .


Havia quem se mutilasse  para fugir à tropa . Um bom truque era de-
cepar o indicador direito, pois isso impedia disparar a espingarda .

Mais expedito e eficaz, para os ricos, claro, era arranjar uma cunha po-
derosa, que colocasse os mancebos em lugares de excepção, ou os se-
leccionasse para serem mais úteis à Pátria, trabalhando em actividades
reconhecidamente imporrtantes, de preferência colocados no estrangeiro
em missão oficial .

Mas o grosso dos não combatentes, ou fugia a salto de lapin, ou sim-
plesmente desertavam, muitos escolhendo o caminho da clandestinidade .

Eram aos montes, os que não se sujeitavam a alimentar uma guerra estú-
pida e injusta .
Claro que muitos aproveitavam a boleia e atravessavam sem qualquer di-
ficuldade a fronteira de Espanha e fugiam para longe .

Foi um dilema importante que se o final do curso se me deparou  :

Fugir, abandonando a Família,

ou arriscar a tropa, numa especialidade útil .

Ainda havia algumas probabilidades de o conseguir . 

Tive muita sorte .

Fui colocado entre o pessoal de engenharia, 
e os desgraçados dos sapadores .

Fiz a recruta  a especialidade de atirador de infantaria, 
e depois fui seleccionado para artista, 

como 

Oficial Foto Cine .



segunda-feira, 27 de março de 2017

A GERAÇÃO PERDIDA .

Anos sessenta, 
os anos de chumbo .

A década de 60 foi a década forte da Guerra Colonial,
que iria prolongar-se por quase 15 anos, feita em três
frentes, Angola, Moçambique e Guiné .
Iria marcar definitivamente e para sempre, uma gera-
ção perdida .

Aguardava-se em desespero, um ano e às vezes mais, até
receber o bilhete premiado para ir cumprir o Serviço Mi-
litar obrigatório .

Uma época de terror organizado, sofrida por mais de um
milhão de portugueses (cuidado que as valentes mulheres
estavam imunes desse selvático tratamento), gente inocen-
te arrancada ao arado, para ir matar ou morrer, longe, mui-
to longe, da terra que a tinha visto crescer .

A década começara com os massacres de colonos, no Nor.
te de Angola .
Nanbuangngo era o lugar de referência e símbolo de dôr e
morte .
Amigos meus foram os primeiros a ir levantar e sepultar os 
corpos mutilados, de homens, mulheres, velhos e crianças .

"Tu não viste nada,
 em Nanbuangongo,
  
Tu não estiveste lá, em Nanbuangongo "

Cantaria o Poeta .

Seguir-se- iam fornadas e fornadas de homens inebriados de 
lágrimas, arrebanhados como carne para canhão .

sábado, 25 de março de 2017

OS ECONOMISTAS MAL PARADOS .

Tantos mestres, tantos economistas reputados, licenciados,
anafados, jubilados,encantados, mal formados, transforma-~
dos, magistrados, desequilibrados, abençoados, 
e outros, que fingiram que trabalharam que nem uns dana.
dos,

procurando, prevendo, estimando, acordando, discordaando, 
painelando, explicando. teorizando, practicando, errando, ba-
ralhando, 
tanto trabalho desperdiçado, e jamais atinando com o valor 
encontrado, do defice tão arduamente procurado e finalmente 
determinado,
deixando os totós do Euro Grupo, de bico calado e com a boca 
ao lado .

Estiveram a procurar no sítio errado,
ou então já sabiam de antemão que não queriam que ele fosse 
afixado, para que tudo continuasse lixado .

Cavaco, Coelho, Gaspar, Maria Luís e mais outra tralha do pas-
sado, nada fizeram de abonado, todos contribuíram para deixar o
povo tramado e atrapalhado .

Esse bando de malandros, deveria todo ser enforcados, com um 
nó bem apertado .

Apoiado .
.

sexta-feira, 24 de março de 2017

A TAMPA DO VESPEIRO TURCO .

O IMPÉRIO OTOMANO .

A guerra global está muito mais perto do que as pessoas 
desprevenidas pensam . É já ali, junto à rolha de Istambul .

A Europa, continente de paz podre paz, é a gente a falar, ou
já todos se esqueceram do Muro de Berlim, das guerras san-
grentas da então Jugoslávia, a disputa entre a Grécia e a Tur-
quia, a Crise de Chipre e do Arcebispo Makários, a Conquis-
ta do Canal de Suez, as várias Guerras entre Israel e os Ára-
bes, aliados na Palestina, a Guerra Civil na Irlanda do Norte,
a luta do País Basco, contra o domínio de Castela, o terro-
rismo das Brigadas Vermelhas, em Itália, e o terror espalha-
do na então na Alemanha Federal, pelos grupos Bader Mei-
nhof, a guerrilha desencadeada pela OAS, contra a França 
Gaulista e , last but not least, o cagaço apanhado pelos burgue-
ses, em França, e um pouco por toda a Europa .

Paz, vou ali e já venho .

Tratava-se em todos os casos, de conflitos limitados, de efeitos
localizados, mortíferos, mas que não puseram em causa, os inte-
resses dos grandes senhores da Europa .

Era para treinar,
para medir o pulso .

Depois, os europeus começaram a saltar a cancela, e já saltavam
para ir à rapina, aqui e ali, em África, no Médio Oriente, caso de 
Gibraltar e das Malvinas, caso dos ingleses, um pouco calcando
terrenos africanos, caso da França .

A Alemanha, dividida à força, e depois reunida à força também,
voltou a dar alento aos impulsos agressivos que estão na génese da
desgraça da Europa, e que de há séculos se degladia para conseguir
a hegemonia .

Desgraçadamente, ou talvez não, a Europa é demasiado grande e
soberba, para querer engolir o Mundo, mas demasiado pequena,
para enfrentar as grandes potências globais .

A Europa é um grande cachorro, com mais 
olhos, do que barriga .

Ladra, mas já não morde .
.

quinta-feira, 23 de março de 2017

O PORCO HOLANDÊS .

Sem qualquer objectivo visível, o porco labrego holandês,
Ministro das Finanças da Holanda, Chefe do Euro Grupo da
da União Europeia, de sua graça DIJSSELBLOEM largou es-
ta bacorada, de finíssimo recorte :

...Os países "do Sul da Europa, passam o 
   tempo a gastar o dinheiro em copos e 
   mulheres e depois vêm pedir o nosso din-
   heiro emprestado...". 

Um mimo, uma pérola . 

Estes tipos do Norte, descendentes dos piratas e filibusteiros, 
que enriqueceram do corso e da rapina pelo Mundo inteiro, 
deviam ter um pouco de vergonha na tromba .

Ou será, que o senhor Dijsselbloem é maricas ...
.

POR A CONVERSA EM DIA .

- Olá, como vais.

- Vou bem, e tu como estás .

- Que tens feito.

- O costume .

- Essa saúde vai boa .

-A minha está bem .

- É sempre o mesmo .

- Não te tenho visto .

- Ora, o tempo vai passando .

- Tem ido às aulas .

- E os teus trabalhos .

-Vão andando .

- Já me falta a paciência .

-Nunca mais vem o bom tempo .

- Pois, está tudo mudado .

- Já não se distinguem as estações .

- O clima está a piorar .

- Isto vai melhorar .

- É quase Primavera .

- Só se for pelo calendário .

- Ainda ontem nevou .

-Tens visto a malta .

- Anda cada um para seu lado  .

- É a vida .

- Pois, é a vida .

- Gostei de falar contigo contigo .

- Foi um prazer .

- Para a próxima, falamos mais .

- Fica combinado .

- Tchau .

- Bye bye .
.