sábado, 12 de setembro de 2009

O Voto (in)útil


Quando se deu o 25 de Abril de 74, era eu um fedelho de 2 anos e meio. Daí que as minhas lembranças do tempo da outra senhora sejam em 2ª mão.

Mas por aquilo que me contam as eleições naquela época eram piores do que os últimos 20 anos do Campeonato Nacional de futebol - sabia-se sempre de antemão que iam ganhar sempre os mesmos. Com as muitas e graves agravantes como a porrada, a censura, a perseguição e quando não a morte daqueles que levantavam a garimpa.
Os votos naquelas eleições eram tudo votos completamente inúteis face ao resultado (que não ao amedrontar do regime).
Conceitos como governabilidade, estabilidade atingiam o seu zénite.

Contudo sobreveio a Democracia. E com ela as eleições livres e justas. E o Parlamento livre.

Hoje, no entanto, tal como em quase todas as eleições desde o cavaquismo, fala-se do voto útil, do voto que realmente conta, etc. e tal.
Tirando os brancos, que contam para as estatísticas e não elegem ninguém, pergunto-me se haverá outros votos inúteis.
Será que se todos votarmos na Carmelinda Pereira ou no PNR, eles não ganharão? ou pelo menos não serão eleitos?
Desconfio que não... a menos que a asfixia democrática seja maior do que aquilo que penso.

Ora se todos os votos contam, porque será que uns são úteis e outros não?

Primeiro vem-me à ideia uma pergunta, talvez estúpida, mas eu sou assim, um pouco tosco - a quem é que os votos são úteis?

Penso que os votos no PS serão úteis à tropa do PS, os do PSD ao pessoal do PSD, os do BE à malta do BE, e por aí adiante. E no seu conjunto, e quantos mais, serão úteis à Democracia.

Contudo já ouvi dizer que a utilidade mede-se no contributo para a governabilidade. Quanto mais se votar num mesmo partido, maior o seu resultado e ops! tem maioria absoluta e faz o que quer. Versão em quadriénio e softcore do tempo do quero, posso e mando.
Então vamos todos votar no partido que as sondagens dão a vitoria e pronto. A democracia esgota-se nas sondagens de opinião e a governabilidade é plebiscitada nas eleições.
Acho esta ideia um pouco fraquinha...

O critério da estabilidade é um pouco como o anterior, mas ainda mais avesso à noção de Democracia. Basta eleger um governo e nunca mais se muda. Uma espécie de Monarquia.

Ora tenho cá para mim, e fora destas análises de sofá e chinelo, que o que é o voto útil em Democracia, é o voto consciente, livre, sem constrangimentos nem ameaças, de acordo com aquilo que mais desejamos e queremos.
E depois que se contem.
Se houver muitos como nós, ganhamos, se houver poucos perdemos, se formos uns tantos influenciamos, se formos quase nada, olha, há mais campeonatos...

Votos inúteis são os votos que nos são impostos ou condicionados pela vontade dos outros, e não pela nossa apenas.

Não chegaram 50 anos?