domingo, 17 de dezembro de 2017

A LAREIRA .

Com dois pauzinhos 
se faz uma cabana .

Primeiro que tudo é preciso que haja frio .
Vontade de fazer o fogo .
De brincar com o fogo .

Há gente que não está para aí virada .
São uns encalorados .
Com medo de se queimar .
Outros não têm fósforos, não sabem fazer o lume, não 
conhecem o prazer que o quentinho dá e nem sequer
arriscam o mínimo .

Mas a necessidade aguça o engenho .

Escolhe-se um sítio recôndito,
bem aconchegadinho, longe dos mirones, e preparam-se 
os pauzinhos cuidadosamente, de modo a fazer num pe-
queno monte, junta-se um pouco de papel e trabalha-se 
de modo a deixar passar o ar, para permitir uma boa 
combustão.

Chegado o momento, quando se está no ponto, saca-se 
da caixa de fósforos e fricciona-se com decisão, mas sem 
quebrar o pauzindo, pois podem queimar-se os dedos . 

Às vezes não acende à primeira .
Tem que tentar-se de novo .

Eis que o fogo espirra 
com alguma violência

e está preparada a chama para nos embalar,
e nos saciar os sentidos .

Depois, é a gente deixar-se ficar a curtir a lareira, até nos 
consolar-mos à vontade .

Parece difícil, 
mas com um pouco de jeito, chegamos lá .
.


sábado, 16 de dezembro de 2017

A Invenção do fogo .

No início da Humanidade, deve ter sido com enorme estupor,
que os homens tomaram conhecimento com o fogo .

Talvez aterrorizados  com a grandeza dos vulcões, ou quando
assistiam espavoridos, das floreostas em chamas, as criaturas
tinham que competir com os animais selvagens .

Era um pânico atávico .

As criaturas fugiam em pânico e refugiavam-se nas grutas im-
provisadas .

Ainda hoje os lobos fogem fogo, apesar de a fome que os assaca .

Cobertos com pelos, para atenuar o frio, aninhavam-se em gru-
pos e refugiavam-se em zonas mais temperadas, para consegui-
rem sobreviver .

Só muito mais tarde, os humanos começaram a perceber, que o
fogo que queimava, poderia ser usado em proveito próprio, se
usado com conta, peso e medida, podendo ajudar a amenizar a
rude vida das cavernas .

Foi sem querer, que o homem deve ter assistido ao raio provo-
cado pela fricção de duas pedras, e conseguiu acender uma pe-
quena fogueira .
Porventura, seria a mais espantosa invenção humana .

A descoberta do fogo .

Aprendeu também, que o fogo era importante demais, para que
se pudesse brincar inavertidamente com essa poderosa força, que
impulsionou a nossa existência .

Ainda hoje, se usa a expressão :

Andas a brincar com o fogo,
ainda te queimas .

Claro que a expressão tem outro significado mais escondido .

Brincar com o fogo é arriscar, é ir mais além, é tentar descobrir 
novas possibilidades, para as coisas, e para as pessoas .

Quem não arrisca, 
não petisca .

Ainda a descoberta do fogo .
Descoberta do fogo, que nada .
O fogo já lá estava, há milhões de anos .
Passou a existir quando demos por ele .

.

É como acender uma lareira .

Não se pode avançar à bruta .
Temos que ir tentando cuidadosamente, e encontrar os gestos com
todo o cuidado .

Mas primeiro que tudo, existe a vontade expressa de preparar o fogo .

.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

As lutas de classe .

São todos iguais, 
mas há uns mais iguais do que outros .

Estava um cordeiro a beber água num regato,
quando surgiu um lobo esfomeado .

O lobo disse ao cordeiro :

-Pira-te daí, que estás a sujar a minha água .

Como? , disse o cordeiro,

- Se a água corre de cima para baixo ...

-Se não foi agora, foi já no ano passado,
 disse o lobo mau, já afiando os dentes .

-Mas eu só tenho um ano de idade, 
  não fui eu, com certeza, disse o bicho, muito assustado ....

E o lobo, furioso, foi ladrando, e abocanhou o borrego :  

- É pá, não me irrites mais, disse a fera começando a devorar
  o pequeno animal,

 se não foste tu que sujaste a água, então foi o teu pai ...

e devotou o cordeiro .

Quem não quer ser lobo, 
não lhe veste a pele ...
.

domingo, 3 de dezembro de 2017

A MINHA MÃE .

A vida, 
foi a minha MÃE que ma deu .


É muito difícil evocar a minha Mãe, a Maria Olinda, 
como o meu Pai, carinhosamente, a tratava .
Eu sempre a tratei por

  Mãezinha .

Ela sim, é que teve uma vida difícil, complicada, dividida
com mil cuidados, entre os cinco filhos que criou, e o ca-
rinho do meu Pai .

Vivia-se naquela época com enorme austeridade .
Esquecida pelos meus avós paternos, que nunca aceitaram 
casamento, por questões de natureza religiosas .

Casou muito nova, com os filhos a sucederem-se, uns a se-
guir aos outros, sem ser tempo de intervalar um pouco,

Tenho uma recordação pouco nítida dessa altura, com os ir-
mãos muito pequenos, e com as deslocações que os meus 
Pais faziam, por razões de emprego do meu Pai,  e que às ve-
zes a acompanhava .

Vivia deste modo, um pouco ao Deus 
dará,

sempre enquadrado pela família mais chegada .

Sempre me senti um pouco abandonado,
e fui desmamado muito cedo, que outro irmão já estava à 
espera . 

Mais tarde, tudo se viria a complicar muito mais, com a gi-
nástica que os meus Pais faziam para encontrar colocação 
escolar, para cinco filhos, que deambulavam de escola, pa-
ra escola e de terra, para terra, como se se tratasse de uma 
gincana vital .

Só muito mais tarde tomei verdadeira consciência das difi-
culdades e das provações por que a minha Mãe (e o meu 
Pai, claro), foram passando, todos esses anos . 

Entre gravidezes e partos, e toda uma série e deslocações, a 
ajudar a grandes problemas económicos, não foi nada fácil a 
vida da minha querida Mãe .

O roteiro das andanças da minha família começava em Seia,
a terra de toda a tribo, e passava por Lisbos, várias vezes, pelo
Tortosendo, Covilhã, Castelo Branco, Guarda, e mais outra
 vez, Lisboa .

Andávamos sempre com a casa às costas, como os caracóis .

A mudança de habitação era uma autêntica operação mili-
tar . Uma das minhas missões, era desaparafusar e voltar a 
aparafusar os parafusos das camas em que dormíamos, já 
gastos com o uso .

Quem tem filhos, tem cadilhos,
quem os não, cadilhos tem .


Cada filho é sempre único .

Todos são filhos únicos, mas o último a nascer, é mais único
do que os outros . E esse é o rei durante um certo tempo, e re-
cebe as suas benesses .
Logo, logo, vinha outro, que depressa se tinha que fazer à vida .

O meu Pai tirou a 4ª. classe, e aos dez anos começou a trabal-
har, no escritório do advogado Dr. Calixto Pires, uma pessoa 
de grande categoria e prestígio, que desde logo o adoptou para 
seu ajudante . 
Mais tarde, ele e esposa, a Dona Noémia, viriam a ser os padri-
nhos de casamento dos meus Pais .

A minha Mãe ( ainda me lembro de a ouvir cantar no côro da
Igreja de Seia), era a primeira solista, com uma voz maravilho-
sa, diziam as pessoas da família e os amigos mais chegados, que
só a Amália Rodrigues cantava melhor .
Cantava todo o tipo de música portuguesa e as mais conhecidas 
da música internacional, mas a sua grande paixão era o Fado .

.

Quase toda a minha família, quer do lado do meu Pai, quer do
lado da minha Mãe, tinha vocação para a música 
O meu Avô paterno, José Alves Garcia, era exímio a tocar a con-
certina, o antepassado do acordeão .
O meu Pai, aos dez anos, era o primeiro clarineta na Banda de
Seia .
Os meus tios e tias, elas cantavam quase todas, e eram muitas, 
na Igreja . Eles distribuia-se pelos mais varidados instrumentos ,
sobretudo os de sopro . Lembro-me do meu tio António, que to-
cava trombone .

O meu Pai era o homem dos sete 
instrumentos .

Na altura, havia a moda chamados conjuntos de Jazz, que abril-
hantavam as festas na Vila e por todo o Concelho de Seia .

O meu Pai, tanto quanto eu me lembro, dedicou-se de seguida ao 
saxofone, num dos grupos com maior sucesso desse tempo, que se
designava o ROMPE E RASGA , uma verdadeira preciosidade, 
um nome tirado do futuro,  bem à maneira à maneira dos moder-
nos  Grupos de Rock .

Não me recordo muito bem como surgiram láem casa os instru-
mentos de corda . Lembro-me de durante as minha escavações na 
loja do meu Avô, que tudo albergava e onde eu passava longas es-
tadias de pesquisa, onde descobria coisas espantosas, ter encontra-
do um banjo, uma viola e um bandolim .
Portanto é porque era normal que alguém os tocasse .
* Mas deve ter sido em Lisboa, quando o meu  Pai trabalhava num 
armazém de lanifícios, na Rua Bernardim Ribeiro, onde vivia 
comoutros hóspedes, que começou a tocar guitarra, acompanhando 
alguns cantores, entre os quais, o nosso grande amigo, o senhor 
Francisco Silva, dono de uma voz espantosa e que cantava Ópera 
no São Carlos, como amador .

Seriam dessa altura, as grandes farras e cantorias, onde o Pai Plá-
cido, desenvolveu a técnica de tocar viola, e depois guitarra, a qual
viria a ter um lugar importante na nossa vida .

O meu chegou a ter lições com os melhores guitarristas de Fado,
de Lisboa, e começou a frequentar as várias casas de, e, por vezes,
a tocar com outros guitarristas, melhorando a sua perfomance ,
experiência que iria ser importante mais tarde .

.

Tinha terminado a nossa longa e difícil vida de transumância, pelo
menos para os meus Pais .
Havíamos  um dia partido de Seia , passámos 2 ou 3 vezes por Lis-
boa, e, quando o meu Pai se fixou no Tortosendo, ´para trabalhar
na fábrica de lanifícios dos Pontífices, aí poisámos um ano. 

Depois experimentámos um ano um ano em Castelo Branco, estabe-
lecemo-nos na Covilhã, após termos vivido em 4 casas no Tortosendo .

Com a construção da nossa casa naquela aldeia vermelha, lá aterrá-
mos de vez .

Muito confuso, não é ?.

Agora tentem só uma aproximação à realidade, para terem uma ideia
do esforço feito por todos nós, e, em especial, pela minha Mãe .

Tortosendo 

era o que agora chamaríamos um study case, com cerca de 20 fábricas, 
apitando, desalmadamente vezes sem conta, de manhã até à tardinha, 
pontuando ferozmente os turnos do trabalho fabril .

Tinhamos agora uma casa nossa, novinha em 
folha, com quintal e tudo,
muitos cães, abelhas, garagem, um enorme jar-
dim, um poço e até uma adega . 
Tudo à maneira, 

pena foi que o sonho tão esforçadamente erguido, tenha demorado tão
pouco tempo a gozar ...

Entretanto, a música e o canto tinham feito o seu caminho .
Quase todos os dias havia ensaio dos Fados e Guitarradas .
O ensino do solfejo e dos instrumentos há muito que se processava, com
a minha Mãe a cantar os fados que o meu Pai mais gostava, acompanha-
dos por dois dos meus irmãos .
Até a minha Mãe aprendeu a tocar viola .

Foi a melhor fase da nossa vida .
.

Havia agora espaço para deixar colocar as peças do jogo da vida, sem ter 
que andar sempre a andar a trocá-las física e emocionalmente, com medo 
de nova mexida .

A criação de um grupo de fados e guitarradas
um conjunto musical, de que o meu Pai era o chefe da orquestra, tocando
Guitarra portuguesa e Acordeão, a minha Mão era a Solista principal e os
meusmãos, os guitarristas residentes .

Havia depois os elementos permanentes,  que se tocavam em nossa casa, per-
mutando, por vezes,  nas casas de uns, e do outros, trocando experiências, 
e  exibindo as suas habilidades .

Por vezes tocavam em certos lugares públicos, mas em ambientes familiares,
como era o caso do Ginásio da Covilhã .

Foi uma época mais sossegada, liberta de grandes problemas, e com os filhos já
crescidos, que a música veio a ter um papel central na nossa vida .

Digo nossa, impropriamente, pois que eu ficara libertado dessas ocupações mu-
sicais . Nunca tive propensão para o estudo das notas (musicais),mas gostava de
tocar acordeão, de  um modo instintivo . Tocava de olhos fechados como o galo, 
mas só com a mão esquerda . 

Foi então que, inopinadamente o meu Pai me informou que eu ia estudar para a
escola da noite, para tirar o curso de Debuxador, uma espécie de Técnico têx-
til,  Foi um grande choque, em todas as vertentes, mas duas tornaram-se vitais
para mim :

á não tinha que estudar música,
e passei a ter uma vida própria, que quase só 
dependia de mim .

Contudo, as coisas ficaram muito baralhadas na minha cabeça .

De repente, deixei de ser adolescente, 
e entrei no mundo dos adultos .

Mais uma vez, senti que a minha Mãe ia ficar mais longe de mim .

Preparava-me o pequeno almoço bastante cedo, e eu lá ia para o
Colégio Moderno, a subir a Calçada Alta .
Servia-me o jantar, que eu devorava à pressa e logo partia para a 
Noite, para estudar à a noite .

Quando regressava, já toda a gente dormia, 
mas a minha Mãe deixava-me sempre uma caneca com leite ou 
com chá, para eu tomar , antes de me ir deitar .

Via-a tempo, mas ao menos eu sabia que ela estava lá, sempre co-
migo, para o que desse e viesse .
.


Tinha começado a minha fase de esquizofrenia .

De dia, rapaz,
homem, depois do jantar .

Sempre fui o filho mais chegado à minha Mãe .
Havia coisas que nos ligavam fortemente .
Não me lembro de alguma vez ter ralhado ou discutido com ela .
Havia sempre uma maneira de resolver os problemas, nem que fosse pelo
silêncio . Eram-mos duas pessoas muito reservadas e contidas, com dificul-
dade exprimir o que sentíamos . 
Depois havia a partilha da ansiedade, sempre presente em tudo .

Era o único dos meus irmãos que largava a brincadeira, para fazer compan-
hia à minha Mãe, nas longas e sofridas horas de espera até que o meu Pai 
chegasse a casa . 

Era uma agonia, sobretudo quando ele ia para longe para a caça, ou quando
atravessava a Serra, cortando a tempestade, sempre em grande velocidade .

Uma vez  fomos passar o Fim de Ano, a casa dos compadres dos meus Pais, 
em Vila Franca das Naves, perto de  Trancoso, (a terra do Bandarra) .
Regressámos tarde, em dois carros, que a meio do caminho se desencontra-
ram . O meu Pai guiou acelerou mais um pouco, e de repente ouvimos o car-
ro a arrastar pela estrada, completamente desequilibrado, e faiscando ao su-
bir a estrada, e numa curva .  .

Tinha saltado uma das rodas traseiras, e andámos horas a encontrá-la .
Foi preciso tirar uma porca a cada roda, para podermos seguir até Seia , com
gandes cautelas, em 4 rodas .
Um amigo nosso, mecânico, ajudou-nos a resolver o problema, e chegámos ao
Tortosendo, já quase de dia .

O grande sonho da minha Mãe, era ser professora, sonho que nunca viria a 
realizar, dadas as circunstâncias da vida .
Não foi professora oficial, mas foi ela que ensinou quase tudo, aos cinco fil-
hos . Sob a orientação e a mão firme do meu Pai, tudo fez, tudo ensinou, pa-
cientemente, desde o mamar, comer, vestir, comportar-se, o tomar banho, as 
pri-meiras letras e as primeiras contas .

Arrumava a casa, fazia a comida, costurava pequenos arranjos. preparava a 
comida para os cães, que eram quase família .
Não tinha tempo sequer,  para descansar um pouco .

Desvelava-se a tratar das doenças, quase sempre havia um dos filhos a neces-
sitar de cuidados, levava-nos ao Dr. Melo, uma espécie de João Semana moder-
do, que nos atendia a todos com grande cuidado .
Os honorários eram pagos com as melhores peças de caça que o meu Pai tra-
zia para casa .
Como já escrevi anteriormente, foi no Tortosendo (e um pouco antes 

na Covilhã) que os meus pais ganharam algum alento .

A lida da casa era agora mais fácil .
Mas a saúde ia minguando em, sentido contrário .

Lembro-me de, quando a minha Mãe ia à praça ou ao talho comigo,
ficava sempre por ali perto (aliás, na terra era tudo muito perto) e fica-
va à coca, à espera, para lhe trazer o saco das compras, durante a com-
prida e empinada rua até nossa casa . 

O trabalho com os cães era pesado .
Os cães(e as espingardas) eram os instrumentos de trabalho indispensá-
veis para a procura de alimento para todos nós .

Numa primeira fase da nossa vida, diríamos que a caça e a pesca, eram 
parte significativa da dieta familiar .

Mais tarde, o meu Pai, era um dos melhores caçadores do país, e tirava 
proveito da sua habilidade, para percorrer a zona centro de Portugal, 
para entrar nos torneios de Tiro aos Pratos, tendo ganho centenas de tro-
féus .

O problema de caçar muito e bem ( o meu Pai só caçava animais de penas,
pois os coelhos tinha sido dizimados e doentes com uma doença, chamada
Mixomatose, ainda não totalmente recuperada)
era a que a quantidade de bichos que  tinha que ser limpa e depenada, e 
isso era uma tarefa imensa, que em regra, calhava à minha Mãe .

Ás vezes, a mortandade calhava em tempo de férias, e então era ver a fa-
mília reunida em grupos, no concurso para ver quem depenava melhor e 
mais depressa .

Depois, ao serão,
regressava em forte, a música,
até alta madrugada .
.

Um Anjo que desceu à Terra .

Desde  nova muito nova, que a minha Mãe começou a cantar na Igreja, como solis-
ta do Côro da Igreja .
Talvez que esse facto tivesse contribuído para cimentar a união matrimonial .
Devia portanto nas festas e nos arraiais, e nos passeios à Serra, como por exemplo,
durante os magustos e almoçaradas na Senhora do Espinheiro, onde mais tarde ain-
da participei algumas vezes .
Não havia carros, e tudo era carregado serra acima, em alegre algazarra .
Passava-se o dia, comendo e bebendo, e a festa acabava por desembocar nas canti-
gar, até ao pôr do Sol .

Na igreja, até os não crentes entravam para ouvir cantar a minha Mãe, ao lado das
outras senhoras, entre elas várias das minhas tias .

Mais tarde, quando a vida se ajeitou um pouco, 
já na Covilhã, o meu Pai começou a ensinar um pouco de técnica de canto r demúsica,
de modo a realçar, ainda mais a voz de Anjo, com que a minha Mãe fora dotada ,

Foi então, que os fados e guitarradas se guinaram a uma altura ímpar, nos saraus fami-
liares e e de grupos de amigos .

A minha ouvia as musicas, escolhia as letras,e o meu Pai arranjava as músicas
e seleccionava os tons das cantigas . Uma parceria que iria durar para sem-
pre .
Cantava tudo o que era música portuguesa, desde o folclore, até às musicas co-
nhecidas internacionalmente, mas a sua grande paixão era o Fado .

A Escola da Noite .

Parece um convite à má vida. Antes fosse .

Já tinha ouvido falar nos debuxadores .
O meu Pai dizia-me que era uma profissão muito bem paga, e que devia ser uma
coisa boa para mim .
Já tinha feito alguns desenhos no Liceu da Covilhã . Tinha feito o busto do Almei-
da Garret, para a festa de homenagem do grande escritor .
As pessoas gostaram .
Foi quando me mandou tirar o curso, na Escola Comercial e Industrial da Covilhã,
a Escola Melo e Castro .

Não foi difícil adaptar-me aos novos estudos, que não à vida de quase escravo, que 
passei a ter .
Fiz alguns amigos, e, rapidamente me transformei no melhor aluno do Curso .

Eu era um menino, no meio dos adultos .

O ensino era muito técnico, mas para mim , muito fácil de apreender .
Tinham-me dado equivalência ao Ciclo Preparatório, de modo que entrei logo nas cadeiras
profissionais, num curso de 5 anos, que acumulava com o ensino do Liceu .

O CURSO DE MALANDRO .

Já tinha frequentado muitas das matérias que fazem um malandro, 
com uma boa aprendizagem absorvida nas várias escolas primárias que havia frequentado .
Formei-me nessas matérias, no Colégio Moderno da Covilhã, que tinha uma merecida reputação .
Acabei por ser Doutorado na escola da noite .
A Vida, fez-me Catedrático em em Ciências  da malandragem .

Transformei-me em malandro, cigano e vadio,
e tenho vindo a reciclar-me pela vida fora .
.

Com a minha vida à noite, algumas coisas melhoraram.
Deixei de ter que passear os cães, que me tinham arranjado uma série de pro-
blemas, tinha sido levado à Esquadra, porque um dos cães atirava-se às pessoas,
carteiros, fardas e mendigos .
O animal, depois de muitas peripécias, acabou por ser abatido no canil .

Acabou-se o tormento de aprender solfejo, o meu Pai não me deixava tocar acor-
deã, tinha que  tocar às escondidas .
E deixei de ter que dar satisfações sobre o que fazia ou não, durante as horas do
meu longo dia .
Ganhei a chave de casa aos meus 14 anos, por uma razão picaresca .

Logo nos primeiros dias da Escola, tinha chegado tarde a casa, já toda a gente 
dormia, e eu comecei a escalar o meu quarto, quando fui agarrado pelas pernas
por um guarda, e tive que fazer valer os meus direitos: 

Ó senhor guarda, essa casa é minha,
s.f.f., toque lá a campaínha, para a minha Mãe me abrir a porta .

Foi remédio santo .
No dia seguinte, o meu Pai entregou-me a chave da casa .

Os serões musicais .

Os ensaios das cantorias e os concertos iam-se sucedendo na minha ausência,
em regra aos fins de semana .

Depois de tirada a mesa e arrumada a cozinha, ia-se compondo o cenário .
Sacavam-se os instrumentos e compunha-se a sala .

Apareciam os tocadores habituais :
O Torres Pereira, na guitarra, o lança na viola, e os meus dois irmãos tocadores .
Vinha o fadista Marchão, e aparecia sempre mais um ou dois comparsas, para
compôr o ramalhete .
O meu Pai passava da guitarra, para o acordeão,

Mas a minha Mãe era a Raínha da Festa .

Fados e guitarradas, de ouvir e chorar por mais .

Se eu gostava de a ouvir cantar . 

Às vezes, quando a minha Mãe cantava nos agudos, eu ficava aflito, com o medo 
de poder falha alguma nota .
Mas nunca aconteceu .
A minha Mãe ia cantando noite fora, até que o esforço despendido a vencesse .

Uma vez, pela Páscoa, em casa da minha avó, mãe da minha mãe, depois de ter
passado o Jesus beijado, 
estava lançada a parte musical, juntavam-se mais ouvintes e participantes .
E o meu Pai dizia,

Maria Olinda, 
canta aquela de que tu gostas tanto .

Começava com chave de oiro .

Uma vez. lá em Seia, o meu primo Zé Manel armou a aparelhagem e começou a gravar o espectáculo, com locução e tudo .
A cassete com a música da-minha Mãe, andou por aí às cambalhotas, mas ainda hoje reli-
giosamente uma cópia .

A minha Mãe foi um anjo 
que desceu à terra para cantar .
.

O que mais me prende à vida
Não é o amor de ninguém
É que a morte de esquecida
Deixa o mal e leva o bem

Quando finalmente a minha Mãe começou a ter algum sossego, eis que a vida lhe viria 
pregar um enorme partida .

Os filhos estavam todos orientados nos seus estudos ou nas suas profissões,  com a minha 
Mãe gozando um merecido descanso e alguma melhoria de vida, eis que surge, como uma grande perturbação, o 25 de Abril, abençoado por quase todos, maldito para alguns, muito 
poucos .

O Tortosendo era conhecido como a aldeia vermelha, com uma grande predominãncia de 
adeptos do PCP .
Não sei ao certo o que se teria passado naqueles dias conturbados, mas correram boatos
reles contra o meu Pai .

Sei que a minha Mãe, já com a saúde muito abalada, passou a viver em estado e pânico .

Eram tempos difíceis, com as pessoas acirradas e revoltadas, desorientaads, procurando
arranjar fantasmas e bodes expiatórios pela pobreza e pela ignorância, de tantos anos  de 
dificuldade extremas .


A minha Mãe não resistiu,

e partiu, na flor da idade .

Ainda hoje vivo amargurado por ter tido a Revolução responsável, em parte, pelo desa-
parecimento  da pessoa que mais amava neste mundo,

e também pelo facto de nunca a ter conseguido compensá-la minimamente pelos sacrifí-
cios que por mim fez, durante toda a sua existência .

Ainda a levei a passear algumas vezes a passear, uma ou outra vez, à Serra, à Floresta,
às Sete Fontes, e à ribeira de Unhais .

Lembro-me de Ela e o Pedro terem ido molhar os pés, na água fria da Ribeira .

É talvez, uma das últimas imagens da minha Mãe .
.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Três quartos de século .

Já me cansa esta lonjura
Já me cansa esta lonjura
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda de noite à procura 
Já me cansa esta lonjura
Já me cansa esta lonura

Quantas vidas eu já vivi ,

Vida de cigano, desde sempre,  em busca do amanhã que 
nunca chegava .

Vida apressada, sempre com o medo de chegar atrasado .

Vida retalhada, espalhada pelos sete campos do mundo .

Vida sofrida, pelas circunstâncias  adversas sentidas .

Vida apagada, sempre com o desejo de a acender .

Vida após vida, até encontrar a própria vida, um dia .

Talvez um dia lá consiga chegar .

Quem sabe, um dia .
.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Coração de Cristal .

Deixei cair no chão 
o meu pequeno coração de cristal .

Materialmente pouco valia, tinha apenas um grande
valor de estimação, pelo que constituía uma uma ri-
queza incalculável .

Caiu sem eu querer, por qualquer gesto em falso, ou
por falta de jeito, sem prestar a devida atenção .

Estatelou-se na calçada e desfez-se em mil pedaços
pequeninos,

De cabeça baixa, bem andei tempo sem conta, à pro-
cura dos bocados espalhados ao acaso .

Perdi-me de desespero, nessa procura sem tino e sem
sucesso .

Ninguém tentou ajudar-me, nem sequer esboçar o mí-
nimo gesto para  me ajudar .

Agora deambulo por aí, desanimado e triste, em busca
do meu coração quebrado .

É a vida .
.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

O ESTICAR DO ELÁSTICO .

Algo vai mal 
no reino da Geringonça .

Fui dos raros militantes do PS a perceber a necessidade 
de experimentar a solução governativa da dita Gerin-
gonça .

Marcelo apadrinhou a ideia, apesar do rosnar dos parti-
dos da direita, que sempre tentaram opor-se-lhe com to-
da a força .

Entendo que no funcionamento da gigajoga , nesta solução 
de Governo, seja sempre necessária uma certa tensão en-
tre os partidos que a sustentam .

Faz parte do jogo político .

Aliás, essa tensão ajuda a manter a colagem dos pedaços 
que a integram .

O facto é que dois anos se passaram sem grandes sobres-
saltos, apesar dos partidos revanchistas tudo terem feito
para desmanchar a união de facto da esquerda .

No entanto, começa a haver fortes sinais que essa maione-
se começa a deslaçar, tentando desfazer o nó cego que a
sustenta .

A proximidade das eleições que já se prefiguram no hori-
zonte, não explica tudo 

A perda de gás do Partido Comunista, que tem vindo a 
aumentar a pressão reivindicativa da CGTP, como um 
toque a reunir de certos grupos profissionais, também não,
apesar da força da rua dos sindicatos, designadamente os
que estão ligados ao ensino .

Há qualquer coisa de estranho no seio 
da coligação .

O caso, de Tancos,
e as calamidades dos incêndios 
florestais,

vieram dar uma uma grande facada na Geringonça, mau 
grado o bom desempenho dos indicadores económicos e fi-
nanceiros .

O Presidente fez acentuar as pretensões de um regresso rá-
pido ao círculo do poder, estimulando os passos de valsa  do
PPD/PSD e do CDS/PP .

Contudo, o  pouco entusiasmo da corrida ao cargo de Secre-
tário Geral do PPD, com dois galitos de Barcelos , franzinos 
e depenados até ao osso,  que se vêm exibido pobremente na 
arena do poder, 

deixam alguma esperança de que a Geringonça poderá ainda 
sobreviver mais algum tempo, apesar da insegurança e do 
atabalhoamento demonstrado pelo PS, a dar mostras de algu-
ma desorientação, como se tivesse sido atingi-do por uma enor-
me trovoada seca .
.


sábado, 25 de novembro de 2017

O Princípio da Incerteza .

Temos um País à beira mar plantado, 
de brandos costumes, 
com bons ventos e bons casamentos,
sempre com sol na eira e chuva no nabal .

Pode ser que chova, 
mas amanhã pode fazer sol .

Pode ser que calhe .
Quem sabe . 
O diabo não está sempre detrás da porta .
O azar bateu-nos à nossa casa , 
Mas no fim tivemos sorte . 
Se tiver que ser .
Nunca se sabe .
Adivinhar o futuro .


Veio mesmo a calhar .
Por pouco não lhe acertou em cheio .
Segundos anos e tínhamos sido sido apanhados 
e tínhamos quinado .
Isso é que foi sorte .
Foi Deus que nos guiou .
Fomos salvos pelo gong, no último instante .
Está-se mesmo a ver .
Quem espera, desespera .
Ninguém espera milagres .

Só Deus sabe .
Tinha que ser .
Há horas felizes .
Foi o acaso .
Vamos a ver o que nos calha na rifa .
Se Deus quiser .
Vamos a ver .
O futuro a Deus pertence .
Calhou assim .
Se a minha avó não morresse .
Saíu-nos na rifa .

Deus não dorme .
Há horas felizes .
Ia-mos ganhando a sorte grande .
Quase acertámos no totobola .
Tivemos a terminação .
Que grande galo .
Foi por um triz .
Por pouco, ficávamos milionários . 
A ver vamos, se nos sai qualquer coisinha .
Guardado está o bocado, 
para quem o há-de comer .


O que tem que ser tem muita força .
Alguma vez tinha que ser .
Dá Deus as as nozes, a quem não tem dentes .
Temos o destino marcado .
Ainda não tinha chegado a nossa vez .
Andamos a jogar na roleta russa .
Foi a sorte ou o destino .
Venha o diabo e escolha .
De candeia às avessas .

Veio ter-lhe às mãos .
Caíu do céu .
Não há-de ser nada .
Quando os animais falavam 
e as galinhas tinham dentes .
Sorte madrasta .
Fazer por isso .
Foi sem querer .
Quem havia de dizer .

Sem saber ao que vinha .
Andar ao engano .
Aguentar-se no balanço .
Fugir a sete pés .
Dar um passo maior do que a perna .
Desenrascar .
Ver para crer ,
Andar às cegas .
Perder o juízo .

Errar é humano .
Com a verdade me enganas .
Andar à babugem .
Quem procura sem encontrar,
acaba por achar sem procurar .
A andar é que se faz o caminho .
Devagar que estou com pressa .
Correr atrás do prejuízo .

.



quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Um País miserável .

Não vou perorar sobre 
os anos 40 e 50 .

Portugal foi sempre um País muito pobre, em ideias
e em recursos .
As dificuldades que se lhe apresentaram no início do 
Séc. XX, com imensas trocas e baldrocas de paridos
e de governos, além de que Portugal foi extraordina-
riamente sangrado pela criminosa Grande Guerra 
de 14/18, em que nos envolvemos, em defesa das nos-
sas Colónias.

Saltemos pois, para os anos 60, do Século passa-
do .

Cheguei a Lisboa em Out. de 1960, e entrei logo para
o Lar da AEIST, que iria ser a minha morada duran-
te 10 anos, situado no cimo da Av. Almirante Reis, no
fim da Cidade .
Cedo tomei conhecimento de um dos maiores bairros
da lata, que saía do Areeiro e ia desembocar no Bairro
da Buraca . Outro grande bairro ia da Av. Paiva Cou-
ceiro e terminava em Xabregas .Um terceiro bairro da 
Lata, acompanhava a antiga estrada (militar) que di-
vidia os Conselhos de Lisboa e Loures .
E tantos outros .
Era impossível não conviver com a miséria sempre pre-
sente na Cidade, visível em tudo e sob todos os aspectos .

Muita gente ainda andava descalça pelas ruas, a mendi-
cidade era uma realidade cruel, e alimentada pelo hábi-
to generalizado da esmolinha .
Os cuidados médicos eram muito rudimentares, talvez 
com a excepção do Programa Nacional de Vacinação .
Tratar dos dentes era um luxo só acessível a uma elite 
e parte da classe médica esclarecida .

Andava-se na pendura dos eléctricos, para poupar no
custo dos bilhetes . Andar de táxi era um luxo só usado 
para uma necessidade .
As refeições eram quase exclusivamente tomadas em ca-
sa, salvo em algumas ocasiões festivas ou em cerimónias 
excepcionais .

Isto era o trivial nas cidades grandes .

Na província, sobretudo nos meios fabris, ou em famílias
muito numerosas, o nível de vida das populações baixava
muito .

.

Como tantas vezes, no decurso da nossa História, o pão 
não chegava para todos, ou era muito mal distribuído .

Tivémos de ir manducá-lo, para outras paragens longín-
quas e, muitas vezes bastante inóspitas .

Deste modo, a Diáspora Portuguesa implantou-se pelo
Mundo inteiro, até em Ilhas que eu só conheci dos selos
publicados em França, como viria a ser o caso da Ilha de
Saint Bartelemy, nas Caraíbas, recentemente destruída
por um furacão, e onde labutavam mais de mil portugue-
ses, na construção civil . 

Percorremos o Mundo, viajámos pelos 5 mares e, com 
uma imensa capacidade de adaptação, arranjámos abri-
go onde houvesse capacidade para oferecer a nossa força 
de trabalho .

Com a independência do Congo ex-Belga, milhares de 
portugueses fixados nessas paragens tiveram que deman-
dar outros países em África e nas Américas, e até na Ásia .

Foi então que descobriram o Éden europeu, num Conti-
nente devastado pelo inferno nazista, e que urgia recons-
truir em força .

Foi a época doirada das gentes desvairadas que partiam
a salto de lapin, dezenas ou centenas de milhares, que se
acoitavam nos imensos bidonvilles de Paris e seus arre-
dores .

Vinha em bandos e mandavam, levar as famílias, logo que 
pudessem, famílias inteiras com ranchos de filhos .

Terá sido, porventura, o maior êxodo de portugueses fugi-
dos de Portugal, só talvez comparável com a expulsão dos
Judeus pela Inquisição .

TRISTE PAÍS ESTE, que leva a vida 
a expatriar-se, uma e outra vez, sem 
poder vir morrer na terra onde nas-
ceu .

Sem pessoas para cuidar das terras, Portugal vai-se es-
vaíndo lenta, mas inexoravelmente,

até se transformar num deserto de pedras e mato selva-
gem, com o beneplácito de Costas e Marcelos, que só ago-
ra descobriram os nomes e as vidas dos Portugueses que 
vivem e morrem, teimando sempre que um dia virão ser
contemplados no sorteio da vida .

Choram agora 

fingidas lágrimas de crocodi-
lo,
que, infelizmente, chegam tarde demais .

As cheias de 1967 .

Tinha acabado o Curso e tinha passado por Coimbra, para
ser operado no Hospital Universitário, e aguardava a chama-
da para a tropa .
Passei por um difícil período de reflexão, no sentido de equa-
cionar o dilema de ir ou não ir para a guerra .
Acabei por arriscar ficar e aguardar as consequências .
Era uma questão muito delicada, essa do Serviço Militar .
A alternativa era desertar, e ter que viver no estrangeiro, sa-
be lá quanto tempo e em que condições, longe da Família e 
dos amigos .

Em Outubro de 67, 
tínha-me candidatado a um lugar de professor do ensino tecni-
co-profissional, na Escola Secundária Patrício Prazeres, em Lis-
boa .
Era aí que me encontrava no Dia 25 de Novembro, desse ano .

Pouca gente conheceu aquele lugar, à época .
Paredes meias com o infernal Bairro do Vale Escuro, numa zona
onde parecia ter caído uma bomba da IIª. Guerra, localizado nu-
ma terra de ninguém, habitada por um formigueiro de gente des-
graçada, onde escorria a céu aberto, uma enorme cloaca fétida, 
que ia desaguar perto de Santa Apolónia, dir-se-ia que vivía-se na-
quele lugar, a meio caminho entre a terra e o inferno .
Nunca tinha atravessado o Bairro a pé, nem sequer de dia .

Naquela noite de 27 de Novembro, de 1967,

Estava a chover com intensidade, o que era normal naquela altura
do ano .

.

Constava que tinha caído uma tromba de água na região de Lisboa .

O Conselho Directivo da Escola ia reunir, para dar instruções aos 
alunos . Alguns dos professores resolveram sair o mais depressa pos-
sível, alguém tinha trazido o carro, e fugimos pela Av. Afonso III e 
já foi difíl passar na Praça do Chile, pois a água já cobria as rodas 
do carro .
Chovia que Seus a dava . Só de atravessar a rua, fiquei enxarcado
até aos ossos .
Fui deitar-me, com o meu rádio de pilhas, que nunca me abandona-
va, e fiquei a ouvir as notícias .
Na Praça de Espanha, um autocarro de dois andares tinha ficado pa-
rado, com os passageiros resguardados no piso superior, tiveram os 
bombeiros que ir resgatá-los pelas janelas superiores .

Como o Campo Grande, a Praça era considerada uma zona facilmen-
te alagável, como tantas outras na Cidade de Lisboa - Algés, Avenida 
da Índia, toda a zona ribeirinha do Rio Tejo .

Acabei por me deixar dormir .
A coisa estava a ficar muito feia, mas muito longe do que iria encon-
trar no dia seguinte .

Levantei-me cedo, como sempre, com a Cidade muito silenciosa, e fui
comprar o jornal .

Fiquei aterrado .

Há muito que se contavam os mortos, os jornaís já iam na 3ª. edição .

Fui tentar tomar o pequeno almoço na Pastelaria Veneza, ao Campo 
Grande .

A Pastelaria, pura e simplesmente, tinha desaparecido .

Fiquei estarrecido .

Só então, comecei a ter a noção da enorme tragédia que tinha aconte-
cido  durante a noite .

A pouco e pouco, é que íamos tomando conhecimento da enormidade
dos acontecimentos, à medida que a censura ia libertando algumas-
(poucas) notícias que iam surgindo a conta gotas, ou através de infor-
mações que nos eram transmitidas de boca em boca .

Os responsáveis políticos dessa altura, através da polícia política, obri-
garam a rádio e a televisão enviaram a seguinte ordem -

-a partir de agora, mais ninguém morre .

Tinha sido escondida a contagem dos corpos, que atingiu mais de sete-
centos, número que ainda hoje não está devidamente estabelecido .

Dava no entanto, para deixar à mostra, as miseráveis condições de vida 
que então eram mantidas, em especial nas zonas de fronteira entre as
cidades e os miseráveis arrabaldes que as cercavam .

Foi uma descoberta estonteante, sobretudo para os jovens universitários
e para a esquerda de matriz católica e social .

Como era possível sobreviver em Portugal, 
nos anos 60, em condições tão degradantes .

O drama foi completamente encoberto pelas autoridades portuguesas .

Recordo que, o Exército Português, através do Serviço Cartográfico, do 
Exército, na Divisão de Fotografia e Cinema, curiosamente onde mais 
tarde viria a ser incorporado, a tropa havia sido mobilizada para cobrir
o País com as reportagens da tragédia, quase em regime de exclusividade .

Foi aí, que acedi a muitas das imagens então publicadas por esse Serviço,
e muitas outras que só vieram à luz, nos nossos dias .

Era assim Portugal, 
uma terra execrável e horrorosa .
.








.

Uma questão de sede .

Ia uma velhinha muito aflita no combóio com uma 
grande sede, a lamentar-se insistentemente, em alta
voz :

- Ai, que sede que eu tenho;
- Ai, que sede que eu tenho .

Com tanta lamúria, alguém se levantou do lugar e 
apressou-se a ir buscar água, para saciar a sede da
da pobre senhora .

Ela pôs a garrafa à boca e bebeu sofregamente o pre-
cioso líquido. 

Passados alguns minutos, a velhota recomeçou a lada-
ínha, e levou o resto da viagem a qeieixar-se : 

-Ai, que sede que eu tinha; 
-Ai, que sede que eu tinha . 

Não sei porquê,
vieram-me à ideia algumas das patranhas mais rebus-
cadas dos partidos da direita conservadora .

O  que vale é que os cães ladram,
e a caravana lá vai passando .
.

Balada da Chuva .

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim .
Será vento, será neve,
granizo não é certamente, 
e o nevoeiro não bate assim .

Fui ver,
a chuva caía, 
branda e leve,
molhada e fria,

à quanto tempo a não via,
ó que saudades, meus Deus .
.

O SONHO .

... E sonhei .
    Sonhei que estava a chover pão .
    
    É criança,
    deita-te no chão
    e abre a boca .

José Gomes Ferreira
.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Grande Seca .

CONSTRUAM-ME, 
PORRA !...

Só os Alentejanos, gerações e gerações de alentejanos,
crestados ao sol, a trabalhar do nascer ao pôr do sol, 
para receber uma côdea, e às vezes, acabar por serem
enfiados na prisão, só por se queixarem da fome que os 
seus filhos passavam,
podem entender o verdadeiro significado de uma gran-
de seca .

Quantas dificuldades, quantas lutas, quantas greves, 
quanta fome sofrida a pedir o pão e a água, a que os 
mandantes, senhores feudais, faziam orelhas moucas, 
negando-lhes o mínimo resalho e  exigir-lhe alimento pa-
ra a boca .

É por isso que o Alqueva, projecto metido na gaveta du-
rante décadas a fio, só recentemente foi apoiado e apro-
vado por iniciativa de um governo do Partido Socialista .
e constitui hoje uma bandeira vermelha para todo o povo 
português .

E foi lançado com a oposição dos partidos da direita .

Como seria a actual seca, se a Barragem do Alqueva ain-
da estivesse por construir, como foi e seria desejo do sen-
hor Cavaco Silva ?.
.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

A Estrada 236 .

Pedrógão Grande .

Os vendedores de sonhos .

Quanto mais o tempo passa, mais eu sinto aquelas 
trágicas sombras cravarem-se no meu espírito, 
aquelas manchas negras, de um lado e do outro da
estrada, serão gente, ou apenas as cinzas ali deixa-
das naquela estrada da morte, presas nos automóveis 
calcinados, como se tivesse havido uma descida aos in-
fernos .

Será que ainda lá estão os restos mortais, ou apenas 
as almas, daqueles que tentavam fugir ao vendaval de 
fogo, aprisionados à hora errada, no tempo errado ,
num terrível holocausto à beira da estrada .

Quem se esqueceu deles, quem os guiou para a morte,
quem não envidou esforços para evitar tão macabra fa-
talidade ?.

Como foi possível tão horrendo massacre, em pleno Sec.
XXI, num país que se gaba de ter atingido um tão eleva-
do grau de modernidade .

É fácil agora esgrimir culpas, sacudindo a águas sujas do
capote .
Mas logo, ali mesmo, no trágico local, a culpa foi assacada 
a quem não exibiu um ar suficientemente pungente, capaz  
de importunar os mais incautos .

Nesta história, fomos todos 
culpados .
Não há inocentes .

Como no romance de Hemingway,
o narrador perguntava :

"Se ouvires um sino a tocar,
  não perguntes por quem ele dobra,
  ele dobra por ti " (e por mim também ).

.



O CAMINHO FAZ-SE CAMINHANDO .

Quanto mais longo é o caminho,
mais sofridas são as palavras .

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

SUBSCRIÇÃO NACIONAL .

As árvores da Islândia .

Por mais estranho que possa parecer, a Islândia 
é um país onde não existem árvores .

Seis meses sem se poder produzir a fotossíntese e a 
fome desalmada dos carneiros à solta pela Ilha, qual-
quer esgalinho que tenha a ousadia de surgir, é ime-
diatamente devorado .

No hall central do Aeroporto de Reykyavik, a capital 
da Islândia, existe uma caixa para donativos, não para 
angariar fundos para obras de caridade ou para a cons-
trução de um monumento qualquer .

As moedas deitadas na caixa revertem exclusivamen-
te, para a plantação de árvores .

Que contraste com Portugal, onde as árvores, aos mil-
hões, são deixadas ao Deus dará, e acabam todos os 
anos reduzidas a cinzas ...

Se cada português ( o preço seria a combinar), plan-
tasse uma árvore por ano, rapidamente teríamos de 
volta o Pinhal de Leiria e uma boa parte das matas da
Serra da Estrela .



Para além da ideia,
contribuo desde já com a verba equi-
valente ao plantio de 4 árvores .
.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

REQUIEM pelos povos das Beiras .

Triste fado ser Beirão .

Fora dos grandes centros populacionais das terras beirãs, a
grande maioria das suas populações, vivia quase exclusiva-
mente uma agricultura de subsistência e da pastorícia .

Havia sempre uma pequena horta familiar, em regra com
plantação de vinha e, muitas vezes, de um pinhal repartido .
Nas serranias havia sempre um poço ou uma mina para a re-
ga e para as necessidades primárias .

A alimentação provinha do pedaço de terra comum e era com-
plementada pela criação de animais de pequeno porte .
A existência de porcos era mais rara  e só os mais abastados 
conseguiam lá chegar .

Levava-se o vinho a fazer na adega e o azeite no lagar .

Corta-se um ou dois pinheiros para a lenha, e o mato para fa-
zer a cama dos animais, que mais tarde era transformada  em
estrume, para alimentar as terras.

Era a maneira ancestral de evitar 
os incêndios florestais .

Havia fruta com fartura, de todas as variedades e preparada 
de diversas maneiras, compotas, frutos secos, sumos .

Era o que se chamava uma alimen-
tação mediterrânea, mas em pobre 
ou remediado .

Havia coisas que era necessário ir abastecer na mercearia ou 
no talho .
Era portanto viver num sistema de trocas (era eu que vendia os
molhos de couves e outros vegetais, angariando algum provento 
para a casa ) .

Uma tia minha era doceira, trazia os produtos necessários para
casa, e apresentava depois deliciosos bolos de encher o olho das 
vizinhas . A gente, os mais miúdos, regalava-se em provar, lim-
pando a massa com o salazar e tendo direito a um pequeno pe-
daço da guloseima .

O resto era suprido pelo ordenado do meu pai .

Contado desta maneira, parecia que vivíamos no Paraíso Terreal .
(devo lembrar que quando eu nasci, a Grande Guerra ainda iria
durar mais três longos e dolorosos anos ).

A pouco e pouco, a vida iria transformar imenso, até se atingir o 
holocausto das serras e das terras das beiras .

.

Quando do Big Bang, Deus criou o Mundo, criou os 4 elementos 
da Natureza , 

Terra, Água, Ar e Fogo .

Todos importantes e cada qual com a sua finalidade .
Parece que o fogo foi somente para assustar os humanos, mas ve-
io a descobrir-se mais tarde, que tinha muitas outras utilidades de 
grande importância .

Quando milhões de anos mais tarde, foi descoberto pelo Homem,
o nosso Planeta pulou e avançou, como bola colorida, entre as 
mãos de uma criança .

O fogo é pois uma coisa boa .

O que é mau é a maneira errada e preversa como é utilizado e 
abusado .

Voltando à realidade,

desde criança que convivo com a realidade dos fogos florestais .
Vivia à porta do Quartel de bombeiros da minha terra  . Era sem-
pre o primeiro a aparecer, quando a sirène tocava , um toque para
a vila, dois toques, quando o fogo era fora .

E apareciam a correr os bombeiros a ataviar-se à pressa, até partir
o primeiro carro de socorro .
Ainda não se sabia bem onde era o fogo, mas como havia 4 estra-
das, para a Serra, para S. Romão, Nelas ou Gouveia, 
nós, os mais miúdos deitava-nos a adivinhar o caminho seguido .

A nossa inocência marcava a terra com um acontecimento importante,
e não tínhamos ainda a noção dos perigos vividos, quer pelos bombeir-
os, quer pela povoações que circundavam as serranias .

Tudo fazia parte de um jogo, mais uma diversão aproveitada pelos lon-
gos dias de férias .

.

Porque ardem as Serras ?.

Sempre houve fogos florestais .

A prova mais evidente é que em todo o planalto central já só existem 
pedras .
Existe alguma vegetação rasteira, disseminada  nalguns sítios, como é o 
caso Nave de Santo António, e numa imensa quantidade de pequenos 
covões, de que o Covão da Ametade é o mais conhecido, pois coincide
com a nascente do Rio Zêzere .

No Verão , os rebanhos sobem à Serra e por aí permanecem até à che-
gada dos primeiros gelos, protegidos pelos cães Serra da Estrela, cães
especiais, treinados para a defesa e guarda dos animais e dos pastores .

Leões com corações de passarinho .

No Inverno, recolhem às aldeias, longe das ameaças dos lobos .

Para quem estiver interessado por este tema, aconselho a leitura do ro-
mance de Ferreira de Castro, 

A LÃ E A NEVE.

Certamente que os pastores, na sua labuta, serão responsáveis, por 
um ou outro fogo, mas sempre de pequena dimensão .

As causas dos fogos florestais são tantas e tão diversificadas, em es-
pecial os de grande dimensão, que agora todos andam em busca das
causas e dos responsáveis, tendo o vício chegado à Presidência da Re-
pública .

Devo confessar que imensos actores, de várias origens, de vários ofí-
cios, de todos os graus académicos, de muitas instituições, sabem o su-
ficiente para apontar aquelas causas dos incêndios, bem como pode-
riam ajudar a solucionar alguns dos problemas mais candentes dos fo-
gos, assim houvesse real interesse para minorar a tragédia vivida, em
maior ou menor grau, todos os anos pelos meses de Verão .

A memória dos homens é curta,

e a cupidez de alguns 

não tem limites .

.

  

terça-feira, 14 de novembro de 2017

A VERGONHA .

" Para além do ser ou não ser
   das palavras ocas,
   penso nos outros, logo existo ".

Sinto vergonha por ser uma pessoa educada, sensível, 
brincalhona, incapaz de fazer mal a uma mosca .

Não sou do tipo politicamente correcto, quando a polí-
tica tem vindo a ser erigida à custa de sucessivas incor-
recções e falácias, umas em cima das outras .

Serei sempre dos primeiros a gritar

O rei vai nú

mesmo quando ainda ninguém o consegue lobrigar .

Tenho vergonha de possuir a língua afiada, buscando 
sempre achar o cisco  no olho do parceiro, sem me acau-
telar a encontrar o argueiro no meu próprio olho .
Mas faço isso sem maldade, sim no intuito de tentar aju-
dar a colmatar um possível erro alheio .

As pessoas não toleram que algo seja posto em causa, mes-
mo quando essa atitude é feita com um bom propósito .

Sou um acérrimo crítico de mim próprio e sei reconhecer 
quando algo vai mal no meu comportamento .
Mas os outros são de uma severidade extrema, quando fal-
ho nalgum pormenor .

Quando era puto, era o primeiro a encabeçar a lista dos 
escolhidos para jogar à bola ou para qualquer outra brin-
cadeira .

Era a minha praia .

Hoje, viajo no último lugar da camioneta, e quase sem-
pre sem qualquer companhia .

Sou naturalmente espremido da dita sociedade bem compor-
tada e arrumada ,
E não é pelo facto de, por vezes, deixar escapar um ou outro
palavrão .

Sim, porque tenho a noção que dificilmente me concedem o 
direito à diferença, sempre que a ocasião se proporciona,
qualquer que seja a natureza de tal diferença .

Tenho vergonha que tal aconteça tantas 
vezes .

Sou o que se chama uma pessoa tolerada .
Só vêm a parte da minha carapaça externa .
Não se apercebem que, por detrás dessa aparência, existe outra
metade que os outros desconhecem ou não se interessam por co-
nhecer .

Esquecem-se do poeta que nos diz :
  
Que os desafinados também têm coração .
.


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Coisas do outro mundo (Cont , ) .

O Professor Ramos,
o meu primeiro treinador de futebol .

Felizmente que havia a Escola, que nos ocupava uma boa 
parte do dia .

O Prof. Ramos não era flor que se cheirasse .
Nunca o vi mostrar os dentes . Corria tudo à pancada .Tinha 
vários instrumentos que usava para manter a ordem e o me-
do, que usava abundantemente . O filho mais novo, burro de
todo, era o mais sacrificado . Apanhava règuadas, levava com 
o ponteiro e era corrido à bofetada .

Tudo isto, até ao intervalo .

Na 2ª. parte da aula, o professor transfigurava-se por imenso, 
e ficava completamente diferente .

Era marado pelo futebol .

E a pancadaria tinha deixado de doer .

Preparavam as equipas, em que o nosso Professor escolhia al-
guns do seu agrado para a sua equipa, e eu, e mais dois ou três
que jogavam bem, eram os adversários .
E aquilo jogava-se forte e feio, rasgadinho, rasgadinho, como de
diz lá para o Norte .

O jogo não tinha duração marcada . Acabava quando o Profes-
sor entendia, mas desde que estivesse a ganhar .

Por isso, todos nós deixávamos coiro e cabelo espalhados pelo Es-
tádio improvisado, e batíamos-nos com grande valentia, quantas
das vezes, com as canelas e os joelhos maltratados, e depois tínha-
mos que passar pela revisão dos sapatos ou das botas cardadas, lá
em casa .

As tareias tinham sido completamente esquecidas, as dores já ha-
viam desaparecido .
Era a hora de esperar impacientemente pelo almoço, pois que já 
todos sentíamos um buraco no estômago .

Amanhã era outro dia ...
.