Nota
Estes dois textos, foram publicados no blog Descrédito,
em 29 de janeiro de 2005, por Mário Garcia.
No essencial mantêm a sua actualidade e coerência.
O que mudou, foi a postura e a agressividade dos bloquis-
tas, que deixaram, agora, cair a máscara.
Afirmam-se, sem qualquer ambiguidade, uma força de poder.
A sua ambição irá fazê-los engolir o seu próprio veneno.
Mais uma vez, não pode passar sem referência a crónica de Vasco Pulido Valente no Público (sexta-feira). Desta vez dedicada ao Bloco de Esquerda, ainda a propósito do famoso incidente final no debate Louçã-Portas.
«A técnica conhecida por "desqualificação do adversário" não nasceu ontem e não admira que persistisse no "Bloco", herdeiro do que havia de pior tradição revolucionária clássica.
Mas, dado o "contexto", talvez fosse de esperar do "Bloco" mais cuidado.
Porque afinal quem são estes senhores do "Bloco"?
São uma centena de intelectuais de Lisboa e do Porto, com um eleitorado de classe média urbana, que subiram às custas de imaginárias "rupturas" com a moral tradicionalista, de um radicalismo inteiramente retórico e de um certo talento para a televisão.
Nada disto é de esquerda e nada disto lhes permite falar em nome dos trabalhadores ou, de resto, de quem quer que seja.
Não representam mais do que uma difusa repugnância pelo regime e as banalidades da moda ideológica do tempo.
Se aplicassem a si próprios a regra que pretendem aplicar a Paulo Portas, também eles precisavam de mudar de vida.
Repudiar a gravata, a favor de um arzinho "estudantil", não é identificação bastante para o povo explorado e oprimido.»
O Bloco de Esquerda já não é mais apenas aquele partido de Francisco Louçã, Miguel Portas e Fernando Rosas, com um discurso arejado e mediático, a tentar ter voz na Assembleia da República.
A avaliar pelas últimas sondagens, arrisca-se a ser a terceira força política portuguesa.
O Bloco de Esquerda está hoje em pleno no sistema político português. Já não é um partido marginal, já não é um voto de protesto contra a política.
O Bloco de Esquerda está hoje em pleno no sistema político português. Já não é um partido marginal, já não é um voto de protesto contra a política.
Contribuiu para a vitória de Santana Lopes em Lisboa.
Louçã já tem o seu lugar garantido na Assembleia da República.
Louçã já tem o seu lugar garantido na Assembleia da República.
Para quê então votar Bloco de Esquerda?
Sábado, Janeiro 29, 2005
O Voto Fácil
No seguimento do texto anterior, constato que o Editorial da revista Sábado intitula-se "Pense Bem Antes de Votar no Bloco". Passo a citar:
«Chegou a altura de levar o Bloco de Esquerda a sério. Até agora, este partido tem sido uma agremiação de castiços, a quem toda a gente diz que sim, façam eles o que fizerem, como era hábito antigamente com os bobos da corte, que divertiam mas não incomodavam.
No entanto, o Bloco de Esquerda ameaça ter um resultado surpreendente nas eleições de 20 de Fevereiro e, como se viu no debate entre Francisco Louçã e Paulo Portas, começa a ter pretensões de ditar, com olho rútilo e dedo em riste, a forma como devemos conduzir a nossa vida. Por isso, é bom que comecemos a dar o devido peso às palavras, actos e omissões do partido que mostra Joana Amaral Dias e esconde o major Mário Tomé.»(...)
«Aqueles que admitem votar no Bloco a 20 de Fevereiro devem, portanto, pensar bem. Querem uma "ruptura com o capitalismo"? Querem "alterar o modelo de sociedade"?
Querem juntar-se à diplomacia do Terceiro Mundo?
Querem ser compreensivos com a ETA?
Se querem, estejam à vontade;
Se não querem, e simplesmente acham graça à "irreverência" dos bloquistas, então talvez seja melhor acabarem com o sorriso fácil e levarem o seu voto a sério.»
O Bloco de Esquerda já fez questão de esclarecer que não quer ir para o Governo.
Óbvio!
O tipo de postura bloquista, de crítica permanente, é incompatível com qualquer exercício de poder, que o atiraria directamente para o campo oposto.
Seria o princípio do fim.
Um bom resultado do Bloco de Esquerda que resulte directamente do enfraquecimento do Partido Socialista, terá como resultado uma maioria parlamentar de esquerda inútil.
Um bom resultado do Bloco de Esquerda que resulte directamente do enfraquecimento do Partido Socialista, terá como resultado uma maioria parlamentar de esquerda inútil.
Aliás, o Bloco já o demonstrou anteriormente, ao negar o seu voto ao governo de António Guterres nas questões fundamentais.
Se Louçã já se recusou a ser "cúmplice" de Guterres, porque o seria agora de Sócrates?
Nunca um voto foi tão útil...
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