quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O Possível, o Necessário, o Realizado

Instituiu-se agora o uso do termo "possível" para caracterizar programas políticos.
Infelizmente é um recurso a um conceito muito pobre e empobrecedor em política.
Pelo menos por três ordens de razões.

- primeira, porque instala um paradoxo que se auto-esvazia no conceito em que se pretende alicerçar. O seu oposto, o Impossível, é por natureza alheio à política, que gere o concreto e o real. Mesmo que se possam confrontar várias opções, elas são TODAS possíveis. São os seus resultados que devem ser avaliados, e não a sua "possibilidade" apriorística.

- segunda, porque confundir o possível e impossível com o que queremos assumir ou o que não queremos assumir, é das duas uma, ou criar um logro linguístico que disfarce uma escolha assumida à partida, ou a redução ao absurdo da possibilidade da escolha, por meios que não a discussão racional das propostas aprioristicamente classificadas como impossíveis. Estaríamos, neste caso, no campo delirante da certeza (esperança!?) de que a negação do outro o faça pura e simplesmente, por artes mágicas, desaparecer para o campo do não-possível.

- terceira, porque ignora toda a História das sociedades Humanas, na qual o que hoje parece impossível para quase toda a sociedade, se torna não só possível, como desejável e impensável que assim não seja. Os dogmas sobre "possibilidade", a não serem justamente quebrados, ainda nos trariam acorrentados à escravidão, ao estatuto de "Untermensch" de acordo com raças ou religiões, à desigualdade entre sexos e por aí adiante.

O problema não está pois no que é possível, mas sim ao nível do que é Necessário e do que é Realizado.

E é exactamente aqui, que a porca vai torcer o rabo.

Porque agora que os ventos mais fortes que assolavam as praças financeiras já amainaram, mesmo que a tempestade continue a desabar sobre grande parte da população com o aumento do desemprego, precariedade e instabilidade na vida comum, já não se vislumbram "possíveis" as mudanças profundas que no conjunto do sistema económico-social continuam a ser necessárias realizar.
Porquê? Porque os "buracos" financeiros do poder financeiro foram tapados, e o resto lá pode continuar destapado como de costume.

Assim parece que vai ser "possível" que a cor rosa se junte na paleta com o azul-amarelo. Como tantas vezes no passado, e com certeza no futuro.

Pelo menos enquanto andarmos presos aos seus "possíveis", desligados do necessário a realizar.

P.S.:Lembro-me agora de um adágio popular antigo
"nunca peçam a um burro para cantar, que ele não consegue"


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