No meu tempo era que era ...
Se eu soubesse ...
Se a minha avó não morresse ...
Ai se a vaca tossisse ...
Já todos devam ter tido a sensação de regressarem ao sítio
onde viveram na meninice, depois de terem passado muitos
anos .
As coisas, os objectos, as pessoas, até os sentimentos, pare-
cem ter levado uma volta dos diabos .
A diferença enorme que nos faz voltar aos tempos de crian-
ças .
Como tudo nos parece tão diferente .
O tamanho das salas e dos quartos, a altura dos tectos, a for-
ma dos objectos, a ausência dos ruídos do passado .
Tudo nos parece agora um mundo de bonecas, como se as dis-
tâncias tivessem encurtado .
Éramos velhos aos 50 anos .
Depois crescemos,
e a vida que nos era dada, como uma espécie de Paraíso,
foi-se transformando num Inferno .
Derrubámos barreiras de toda a natureza, pomos tudo em
questão, vamos recriando a nossa própria realidade , vamos
descobrindo a nossa própria verdade, mas agora observada
com outros olhos e outros óculos .
Começamos a sofrer de miopia e de vista cansada .
Deviamos ver mais perto e mais longe .
Agora, já na curva da estrada, amontoado no grupo dos sénio-
res, sou mais espectador do que actor, e não gosto do que vejo
por aí, gente sem qualquer valor, sem estatuto, sem competên-
cia, sem princípios, sem dignidade, gente que vegeta, em busca
de favores, de lucro fácil, de prebendas traiçoeiras, de negocia-
tas fraudulentas, de troca de influências, sem pudor e sem ver-
gonha, disposta a pactuar com tudo e todos, na fronteira do cri-
me e da pouca vergonha .
Vejo piolhos, carraças, vermes,
a picar o povo, inoculando venenos de toda a sorte, anestesiando
gente incauta, desprevenida, descuidada, até à exaustão, uns re-
voltados, outros resignados com a vida que levam .
Se isto é a Democracia ...
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