terça-feira, 1 de agosto de 2017

A APRENDIZAGEM .

Andando, faz-se o caminho .

Quando comecei a frequentar as fábricas com mais 
assiduidade, em especial as tecelagens, que faziam
um barulho infernal, ficava completamente surdo .

Para meu espanto, os operários falavam uns com os 
outros, nas calmas, como se estivessem na rua .
Com o andar do tempo, fui aprendendo que o ouvido
humano se vai habituando a certas frequências e as
pessoas ficam parcialmente surdas . Deixam de ouvir 
as pancadas dos teares .

Outra coisa que a princípio ma fazia muita confusão
era as pessoas conversarem umas com as outras, sobre
todas as matérias, mas nunca pronunciavam certas pa-
lavras . 
Era uma espécie de conversa cifrada .

Usavam-se nomes e frases sem sentido directo, mas toda 
a gente percebia o significado e a ideia que estavam sub-
jacentes .

Era uma espécie de medida cautelar, usada gerações
após gerações, com toda a naturalidade, não fosse alguma
palavra perigosa escorrer para ouvidos inadequados .

Levei algum tempo a entrar naquele jogo .

Ainda hoje tenho o hábito de falar nas entrelinhas, ou usar e
abusar dos trocadilhos .

Outro truque que se usava nestas terras proscritas, era ter sem-
pre a televisão ligada, mas sem som .
Só se ligava o som, se eventualmente aparecesse um programa 
de interesse .
Deste modo, poupava-se a conversa vazia dos noticiários e dos
comentários políticos .

A coisa era mais acentuada no Tortosendo, terra operária por
excelência, onde as mulheres só saíam à rua, para ir para o 
trabalho . 
E os homens tinham que se deitar cedinho, pois pela
manhã eram acordados por uma bateria de sirénes para os en-
caminhar para as fábricas .
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